Qual a influência da personalidade individual sobre a participação eleitoral na América Latina?

Ednaldo Ribeiro, Professor associado da Universidade Estadual de Maringá, Docente do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da UFPR, Maringá, PR, Brasil.

Julian Borba, Professor associado da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, SC, Brasil.

Estudos sobre personalidade conduzidos por psicólogos têm procurado entender as diferenças individuais nessa estrutura interna que faz algumas pessoas serem mais tímidas, extrovertidas, organizadas, curiosas ou emotivas do que outras (COSTA; MCCRAE, 2003). As consequências dessas diferenças psicológicas em termos de comportamentos e atitudes em vários campos da vida moderna também tem sido objetivo frequente de estudos. Em estudo publicado, Simon Moss (2007) mostrou que pessoas que apresentam fortemente o traço de personalidade da “abertura à experiência” tendem a ser mais criativas no exercício de atividades profissionais. Essas pessoas, todavia, teriam maior probabilidade de adotar comportamentos de risco, como a combinação do consumo de álcool com direção, além de serem mais propensos ao tabagismo, como demonstraram Booth-Kwley e Vickers (1994). Aqueles que apresentam de maneira mais destacada os traços da extroversão, por sua vez, tenderiam à compulsão ao trabalho, mas também seriam mais adaptáveis às mudanças ocupacionais.

Recentemente alguns estudos têm tentado estender essas relações também para o campo da política, pesquisando as conexões entre essas diferenças psicológicas e vários tipos de comportamentos e atitudes políticas (MONDAK, 2010).

O artigo “Comparecimento eleitoral na América Latina: efeitos de características psicológicas individuais em contextos de obrigatoriedade” publicado no periódico Dados (v. 62, n. 4), investiga se essas características teriam algum impacto sobre o ato de comparecer aos locais de votação e também se esse efeito seria diferente em contextos de voto obrigatório e facultativo. Se debruçando sobre o contexto latino americano são analisados 13 países com voto obrigatório e 3 com voto facultativo (Tabela 1).

Tabela 1. Comparecimento eleitoral por país e bloco, América Latina, 2010

Obrigatório Facultativo %
Argentina 75,2 Colômbia 60,2
Bolívia 89,2 El Salvador 79,3
Brasil 83,4 Venezuela 68,6
Chile 93,7
Costa Rica 58
Equador 92,7
Guatemala 69
México 71
Panamá 81,8
Paraguai 66,8
Peru 80
República Dominicana 76,1
Uruguai 93,5
Bloco 80,9 Bloco 69,5

Fonte: Lapop Brasil 2010.

A pesquisa investigou qual o impacto de dois traços específicos de personalidade sobre a probabilidade de comparecimento eleitoral nas eleições nacionais: a extroversão e a conscienciosidade. O primeiro é frequentemente ligado aos adjetivos energético, arrojado, falante, sociável, enquanto o segundo é associado a características como confiabilidade, organização, pontualidade. Ambos traços são medidos por meio de uma técnica que pede para as próprias pessoas entrevistadas se avaliarem em termos de alguns adjetivos como “ativo”, “briguento”, “disciplinado”, “criativo”, dentre outros.

Usando técnicas de análise multivariada os autores descobriram que a personalidade individual é muito importante na explicação do ativismo político eleitoral, já que mesmo considerando características sociais, demográficas e atitudinais, a extroversão e a conscienciosidade se mostram características individuais marcantes no perfil daqueles que comparecem aos locais de votação.

Os efeitos dessas duas características são muito semelhantes nos dois contextos, de voto obrigatório e facultativo, e tendem a ser maiores nesse último (Tabela 2). Ou seja, é quando não existe uma lei que obriga todos os cidadãos a comparecerem aos locais de votação que essas diferenças psicológicas são mais relevantes.

Tabela 2. Efeitos da Extroversão e da Conscienciosidade sobre o comparecimento, América Latina, 2010

Obrigatório Facultativo Obrigatório Facultativo
Escolaridade 1,07***

(,006)

1,05***

(,014)

1,08***

(,007)

1,05***

(,013)

Idade 1,06***

(,007)

1,06***

(,005)

1,06***

(,003)

1,06***

(,005)

Sexo 1,01

(,055)

1,32**

(,100)

1,00

(,055)

1,28*

(,100)

Interesse por Política 0,84***

(,032)

0,88*

(,058)

0,84***

(,032)

0,88*

(,058)

Eficácia Política Subjetiva 1,00

(,018)

1,06.

(,032)

1,00

(,018)

1,05*

(,032)

Associativismo 1,19***

(,020)

1,19***

(,039)

1,19***

(,020)

1,19***

(,039)

Associativismo Partidário 1,06

(,050)

1,23*

(,102)

1,06

(,050)

1,23*

(,010)

Confiança Política 0,95**

(,017)

1,02

(,032)

0,95**

(,016)

1,02

(,032)

Confiança nas Eleições 1,06**

(,018)

1,13***

(,035)

1,07**

(,018)

1,13***

(,035)

Avaliação Econ. Sociotrópica 1,20***

(,041)

0,99

(,075)

1,19***

(,042)

0,98

(,076)

Avaliação Econ. Egotrópica 1,09**

(,034)

0,84**

(,060)

1,09**

(,034)

0,84**

(,060)

Eficácia Política 1,00

(,018)

1,06.

(,032)

1,00

(,018)

1,05

(,032)

Democratismo 1,16*

(,062)

1,12

(,116)

1,17*

(,062)

1,11

(,117)

Extroversão 1,06***

(,012)

1,10**

(,030)

Conscienciosidade 1,04*

(,016)

1,11***

(,091)

Intercepto 0,12***

(,244)

0,04***

(,453)

0,15***

(,245)

0,04***

(,467)

N 9864 2371 9861 2364

Referências

AMERICASBAROMETER, by Latin American Public Opinion Project (LAPOP), www.LapopSurveys.org.

BOOTH-KWLEY, S. and VICKERS, R. Associations between major domains of personality and health behavior. J Pers., 1994, vol. 62, no. 3, pp. 281-298, ISSN: 1467-6494 [viewed 15 January 2020]. DOI: 10.1111/j.1467-6494.1994.tb00298.x. Avaliable from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/7965560

COSTA, P. and McCRAE, R. Personality in adulthood. A five-factor theory perspective. New York: Guilford, 2003.

MONDAK, J. Personality and the fundations of political behavior. Cambridge: Cambridge University Press, 2010.

MOSS, S. et al. Maintaining a open mind to closed individuals: the effects of resource availability and leadership style on the association between openness to experience and organizational commitment. Journal of Research in Personality, 2007, vol. 41, no. 2, pp. 259-275, ISSN: 0092-6566 [viewed 15 January 2020]. DOI: 10.1016/j.jrp.2006.03.009. Avaliable from: https://psycnet.apa.org/record/2007-05147-002

Para ler o artigo, acesse

RIBEIRO, E. A. and BORBA, J. Personalidade e Comparecimento Eleitoral na América Latina: Efeitos de Características Psicológicas Individuais em Contextos de Obrigatoriedade. Dados [online]. 2019, vol. 62, no. 4, e20170048, ISSN 0011-5258 [viewed 21 January 2020]. DOI: 10.1590/001152582019195. Available from: http://ref.scielo.org/smgxt2

Links externos

Dados – Revista de Ciências Sociais – DADOS: www.scielo.br/dados

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

RIBEIRO, E. and BORBA, J. Qual a influência da personalidade individual sobre a participação eleitoral na América Latina? [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2020 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2020/04/16/qual-a-influencia-da-personalidade-individual-sobre-a-participacao-eleitoral-na-america-latina/

 

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