Fabiana Sabadini Rezende Niglio, Coordenadora de Comunicação do Brazilian Journal of Food Technology, Campinas, SP, Brasil.
Silvia Pimentel Marconi Germer, Editora adjunta do Brazilian Journal of Food Technology, Campinas, SP, Brasil.
A popularização dos produtos proteicos alternativos ao redor do mundo levanta uma questão crítica do ponto de vista da saúde pública: as informações nutricionais declaradas nos rótulos das embalagens refletem, de fato, o que está dentro desses produtos? É essa pergunta que um grupo de pesquisadores de duas universidades federais brasileiras — Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) — se propôs a responder no estudo Meat-derived patties and plant-based meat analogs from Brazil: Are the labels accurate for protein and lipid content?, publicado pelo Brazilian Journal of Food Technology (vol. 26, 2026).
Foram avaliados 21 produtos processados, adquiridos no varejo do oeste do Paraná: seis hambúrgueres de carne (bovina, suína e mista frango-boi) e 15 produtos análogos à base de plantas (hambúrgueres, nuggets, almôndegas, salsichas e análogos de carne moída e quibe). Os pesquisadores realizaram análises para a determinação dos teores de proteína, de lipídios, da umidade e de cinzas, comparando-os com os valores declarados nos rótulos. Verificaram, também, a conformidade desses com a legislação brasileira de rotulagem, que tolera variações de até 20% para macronutrientes (BRASIL, 2003, 2013).

Imagem: Via Canva
Os hambúrgueres de origem animal mostraram maior conformidade regulatória, com a maioria dos produtos dentro do limite de tolerância de ±20%. Entretanto, dois produtos apresentaram teores proteicos abaixo do mínimo legal de 15% exigido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), e dois outros tiveram variações nos teores de lipídios superiores a 20% em relação ao rótulo — evidenciando falhas, mesmo nesse segmento já regulado.
No caso dos produtos plant-based, os resultados foram mais expressivos: 66,7% dos hambúrgueres vegetais apresentaram discrepâncias superiores a 20% no teor de proteína em relação ao declarado no rótulo — configurando não conformidade com as normas de rotulagem vigentes. Entre os demais análogos (nuggets, salsichas, almôndegas), variações superiores a 20% foram observadas, especialmente nos teores de lipídios. Um destaque negativo foi o nugget de grão-de-bico, com desvio proteico superior a 20%.
Os autores salientam que os hambúrgueres de carne já são objeto de regulamentação no Brasil, porém os produtos plant-based operam em um vácuo normativo, não havendo, até o momento, definição de conteúdo mínimo ou máximo de proteínas e lipídios para a categoria. Essa realidade contrasta com o que se observa em outros países. O Canadá, por exemplo, exige teores mínimos de 16% de proteína e máximos de 25% de lipídios para análogos de carne (CANADIAN FOOD INSPECTION AGENCY, 2021). A China, por sua vez, exige um mínimo de 12% de proteína, e o Japão impõe um mínimo de 10% de proteína para produtos à base de soja.
Relevância científica e social
O estudo preenche uma lacuna importante na literatura científica nacional e internacional quanto à acurácia de rotulagem de produtos plant-based. Do ponto de vista da saúde pública, as inconsistências identificadas comprometem a capacidade do consumidor de fazer escolhas alimentares bem informadas — especialmente aqueles que dependem dessas informações por razões clínicas, éticas ou ambientais. A pesquisa reforça a necessidade urgente de atualização regulatória no Brasil e de adoção de práticas mais rigorosas de controle de qualidade na indústria.
Para ler o artigo, acesse
LEONARSKI, E. et al. Meat-derived patties and plant-based meat analogs from Brazil: Are the labels accurate for protein and lipid content?. Brazilian Journal of Food Technology [online]. 2026, vol. 29, e2025074 [viewed 01 Jan 2026]. https://doi.org/10.1590/1981-6723.074025. Available from: https://www.scielo.br/j/bjft/a/3bm5kCFNmZfphhwtBsJHVgD/
Referências
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n. 360, de 23 de dezembro de 2003. Regulamento técnico sobre rotulagem nutricional de alimentos embalados. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 dez. 2003.
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n. 54, de 12 de novembro de 2012. Regulamento técnico sobre informação nutricional complementar. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 13 nov. 2012 [publicação e vigência 2013].
CANADIAN FOOD INSPECTION AGENCY. Standards for simulated meat, poultry and egg products. Ottawa: CFIA, 2021.
Links externos
Brazilian Journal of Food Technology – SciELO
Brazilian Journal of Food Technology – BJFT
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