A experiência militante de três jovens professoras e as contribuições do feminismo de rede

Patrícia Karla Soares Santos Dorotéio, professora do Departamento de Educação da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) – Unidade Ibirité, Ibirité, MG, Brasil.

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O artigo intitulado Feminismo de rede, a militância on e off-line de três jovens professoras apresenta resultados de uma tese interessada em compreender a experiência de militância de três jovens professoras. As professoras que foram sujeitos de pesquisa são atuantes em escolas públicas de Belo Horizonte e região metropolitana e têm em comum uma prática de ação que envolve os modos tradicionais do fazer político no campo das chamadas esquerdas (SADER, 1988): são filiadas a partidos políticos, participam ativamente dos sindicatos de professores e são solidárias às lutas dos demais trabalhadores e trabalhadoras. 

Além disso, as três professoras estão atentas à multiplicidade de lutas em cena: os feminismos, as demandas LGBTQIAPN+, as lutas antirracistas, anticapitalistas e pelo meio ambiente, tendo também em comum o uso intensivo das redes sociais como espaço de publicização daquilo pelo qual lutam e defendem. 

O uso intensivo das redes sociais por parte das professoras favoreceu a escolha da netnografia como metodologia de pesquisa. Kozinets (2014, p. 10) define a netnografia como “uma forma especializada de etnografia adaptada às contingências específicas dos mundos sociais de hoje mediados por computadores”. Respeitando os preceitos éticos e metodológicos da netnografia, acompanhamos o Facebook das professoras verificando as publicações do período entre janeiro de 2015 e dezembro de 2019. A partir do que elas compartilharam na rede social, selecionamos discursos e práticas de militância. 

Após a pesquisa netnográfica, realizamos uma entrevista com cada uma delas. Assim, as análises presentes no artigo foram possíveis a partir de um método híbrido, a junção entre a netnografia e a entrevista. Com esse método híbrido, a intenção foi apreender a imbricação daquilo que elas publicaram nas redes sociais e daquilo que disseram sobre o conteúdo publicado. 

Perguntamos, então, qual a experiência contemporânea dessas jovens professoras? Afinal, em que medida as pautas e os movimentos pelos quais elas lutam e defendem conformam os seus modos de ser docente?

Para responder a essas perguntas, tomamos como base os estudos de Michel Foucault, sobretudo em suas últimas obras, quando o autor nos oferece um arcabouço teórico que apresenta a relação entre ética e política. Aliás, o mesmo caminho de pesquisa tem sido explorado por vários pesquisadores e grupos de estudos que se mostram interessados em compreender as formas de resistência em curso, a partir das lentes de Foucault. Uma amostra desses estudos pode ser vista em Rago e Gallo (2017). 

Mulher de cabelos curtos com mechas azuis, usando máscara e roupa preta, segurando uma placa durante um manifesto contra a violência às mulheres. Na placa está escrito: "que ser mujer no nos cueste la vida" [que ser mulher não nos custe a vida, em português].

Imagem: Pixabay.

Dentro desse campo de pesquisas, os estudos foucaultianos, o artigo publicado no periódico Educação em Revista traz, entre as suas contribuições, debates e reflexões produzidas no grupo de estudos Panóptico, sediado na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e do qual fazem parte os autores do artigo, Patrícia Dorotéio e André Favacho.

O artigo apresenta alguns resultados de pesquisa, entre eles a evidência de uma prática que chamamos de “feminismo de rede”, não apenas em referência a crescente circulação dos discursos feministas nas redes sociais; mas compreendendo que a experiência de militância das professoras pesquisadas indica um modo de ser feminista constituído a partir de uma ampla rede. Essa rede aciona discursos que envolvem as questões da vida cotidiana, as dificuldades e urgências que se apresentam às mulheres, as violências; mas também a teoria, como os estudos de gênero desenvolvidos nas últimas décadas; as práticas políticas institucionais, político-partidárias das mulheres; as formas de organização contemporâneas: as marchas, os coletivos feministas, as campanhas on-line

A experiência de militância das professoras pesquisadas indica um tipo de feminismo que, na contemporaneidade, tem se constituído a partir de múltiplas conexões e participa dos debates dentro da escola, sobretudo, por meio dos temas e problemas sociais cotidianos que envolvem as mulheres.

Além disso, a experiência de militância das professoras indicou a manutenção de práticas de ação que remetem ao novo sindicalismo surgido na década de 1970, uma vez que elas continuam acionando discursos como “luta coletiva” e “união pela base”. No entanto, para além de levantar o debate sobre as pautas da luta trabalhista, as professoras desempenham outro importante papel junto ao coletivo docente e de estudantes: elas são professoras que estão interpelando, identificando, denunciando, apontando situações de machismo, de preconceito e de discriminação no cotidiano da escola; elas questionam o uso de termos naturalizados que carregam preconceitos; requisitam uma linguagem não sexista nas comunicações cotidianas; propõem a inserção de temas sobre as diversidades nos projetos da escola, entre outros caminhos. 

Com esses “pequenos” constrangimentos, essas professoras vão causando “pequenas” transformações nos espaços em que atuam. Assim, elas representam uma docência que tensiona o currículo da escola, especialmente quando introduzem as temáticas que falam das ditas minorias, como o combate ao racismo, a defesa da igualdade de direitos entre os gêneros, a leitura crítica sobre as relações de consumo, o respeito às diversidades e outras.

Por fim, entendemos que a experiência de militância das três professoras pesquisadas é compartilhada por inúmeras outras pessoas que, na atualidade, estão a favor da diferença, da coexistência dos diferentes modos de ser. Essa experiência tem demandado reordenamentos: novos modos de fazer política partidária que componham com as diferenças, outras maneiras de ser militante, outras maneiras de ser docente, outros currículos escolares. 

Sabemos, contudo, que o artigo apresentado toma como objeto de estudo um movimento em curso, sobre o qual não há respostas definitivas. Os modos contemporâneos de ação militante convidam a nós, pesquisadores e pesquisadoras, a nos debruçarmos sobre diferentes experimentações teóricas e metodológicas, a fim de compreendermos os sentidos e as implicações das lutas e resistências que estão sendo produzidas no tempo presente. 

Referências

BUTLER, J. Corpos em aliança e a política das ruas: notas para uma teoria performativa de assembleia. Trad. Fernanda Siqueira Miguens. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

CASTELLS, M. Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet. Trad. MEDEIROS, C.A. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

DARDOT, P. and LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016.

FOUCAULT, M. Ética, sexualidade e política (Ditos e escritos V). Org. MOTTA, B.M. Trad. MONTEIRO, E. and BARBOSA, I.A.D. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

FOUCAULT, M. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Trad. Maria Thereza da Costa Albuquerque. 13 ed. Rio de Janeiro: Graal, 2009.

FOUCAULT, M. A coragem da verdade – o governo de si e dos outros II: curso no Collège de France (1983-1984). Trad. BRANDÃO, E. São Paulo: Martins Fontes, 2011.

KOZINETS. R. Netnografia: realizando pesquisa etnográfica online. Trad. BUENO, D. Porto Alegre: Penso, 2014.

McLAREN, M. Foucault, feminismo e subjetividade. Trad. Newton Milanez. São Paulo: Intermeios, 2016.

RAGO, M. and GALLO, S. (Orgs). Michel Foucault e as insurreições: é inútil revoltar-se? São Paulo: CNPq, Capes, Fapesp, Intermeios, 2017.

SADER, E. Quando novos personagens entraram em cena: experiências, falas e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo, 1970-80. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

DOROTÉIO, P.K.S.S. A experiência militante de três jovens professoras e as contribuições do feminismo de rede [online]. SciELO em Perspectiva: Humanas, 2024 [viewed ]. Available from: https://humanas.blog.scielo.org/blog/2024/03/08/a-experiencia-militante-de-tres-jovens-professoras-e-as-contribuicoes-do-feminismo-de-rede/

 

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