Ana Luiza Silva Oliveira, Linceu Editorial, São José dos Campos, SP, Brasil.
O abdome aberto é uma estratégia frequentemente utilizada em cirurgias de emergência e em casos graves de trauma ou infecção abdominal, permitindo o controle inicial do quadro clínico quando o fechamento imediato da cavidade não é possível. Apesar de sua importância, a manutenção prolongada dessa condição está associada a complicações significativas, como hérnias incisionais complexas, infecções e fístulas intestinais.
Desse modo, para propor uma alternativa padronizada, de baixo custo e facilmente reproduzível para o fechamento progressivo do abdome aberto, os autores Diego Adão, Fauze Camargo Maluf, Gabriela Caetano Lopes Martins, Ramiro Colleoni Neto, Milton Scalabrini e Leonardo De Mello Del Grande uniram-se no desenvolvimento da técnica SPAM (Stepwise Plication of Abdominal Mesh), descrita no artigo Stepwise Plication of Abdominal Mesh technique for open abdomen closure, publicado no periódico Acta Cirúrgica Brasileira (vol. 41), em 2026.
O estudo consiste em um relato técnico que apresenta uma variação da abordagem para o fechamento fascial tardio em pacientes com abdome aberto (peritoneostomia/laparostomia). A técnica combina o uso de tela cirúrgica de polipropileno com terapia por pressão negativa, buscando promover a aproximação gradual das bordas da parede abdominal sem a necessidade de ressecar a tela a cada etapa do processo. Para avaliar sua aplicabilidade clínica, o método foi utilizado em quatro pacientes com diferentes causas de abdome aberto, incluindo perfuração retal traumática, evisceração após cirurgia de Hartmann e deiscências de anastomose gastrojejunal.
A técnica SPAM, cujo acrônimo foi escolhido em referência às primeiras latas com chave (key can) que eram de uma marca com esse nome, foi estruturada em cinco etapas sequenciais. Inicialmente, após a limpeza da cavidade abdominal e a proteção das vísceras, uma tela de polipropileno é fixada às bordas da fáscia, cobrindo completamente a abertura abdominal. Em seguida, realiza-se uma pequena incisão longitudinal central na tela, preservando sua continuidade. A partir desse ponto, a tela passa a funcionar como um mecanismo de tração gradual, permitindo a aproximação progressiva das bordas da parede abdominal sem a necessidade de sua remoção ou substituição durante o processo.

Imagem: Arquivo Pessoal de Diego Adão.
Na etapa seguinte, que é a inovação técnica proposta, a tela é tensionada por meio do seu enrolamento controlado com auxílio de uma pinça hemostática, em um movimento comparado pelos autores ao mecanismo utilizado para abrir uma lata com chave. Após a obtenção da tensão desejada, a estrutura é fixada com sutura contínua para manter a aproximação das bordas fasciais. Por fim, o sistema é associado ao fechamento abdominal temporário assistido por pressão negativa (Temporary Abdominal Vacuum-Assisted Closure – TAbAVAC), composto por uma barreira protetora sobre as vísceras, compressas cirúrgicas e drenagem contínua a vácuo, responsável por auxiliar no controle de fluidos e na proteção dos órgãos abdominais.
Os ciclos de plicatura da tela e troca do sistema de pressão negativa foram realizados a cada 48 a 72 horas, promovendo a redução gradual da distância entre as bordas da parede abdominal até a realização do fechamento definitivo. A técnica foi aplicada em quatro pacientes com diferentes causas de abdome aberto. Em três deles, foi possível obter fechamento fascial primário em aproximadamente dez dias, sem registro de fístulas enteroatmosféricas ou hérnias incisionais durante o acompanhamento inicial. O quarto caso teve o procedimento interrompido em decorrência da piora clínica do paciente e da necessidade de novas intervenções cirúrgicas.
Apesar do número reduzido de casos, os resultados sugerem que a SPAM constitui uma alternativa promissora para o fechamento fascial tardio, especialmente em cenários com recursos limitados. Por utilizar materiais amplamente disponíveis e dispensar o corte sucessivo da tela, o método apresenta potencial para simplificar o manejo do abdome aberto e reduzir custos associados ao tratamento. Dessa forma, os autores destacam a necessidade de estudos futuros para validar a técnica em populações maiores, mas ressaltam sua capacidade de oferecer uma abordagem padronizada, reprodutível e acessível para um dos desafios mais complexos da cirurgia de emergência.
Para ler o artigo, acesse
ADÃO, D. et al. Stepwise plication of abdominal mesh technique for open abdomen closure. Acta Cirúrgica Brasileira [online]. 2026, vol. 41, e413426 [viewed X 2026]. https://doi.org/10.1590/acb413426 Available from: https://www.scielo.br/j/acb/a/ryP58ykqkxcnP9YsWDCMgPG/
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