Existe solução para o excesso de cesarianas no Brasil?

Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiza Gualhano, Editora assistente da Revista Ciência & Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

A edição 27.2.2022 da Revista Ciência & Saúde Coletiva dedica grande parte deste número a questões que afetam a saúde das mulheres, dentre elas, a violência de gênero. O artigo escolhido para este comentário é o que trata do Apoio contínuo na assistência ao parto para redução das cirurgias cesarianas, de Oliveira et al (2022). Os autores apresentam uma perspectiva positiva para correção de rota do excesso dessas cirurgias no país e no mundo.

O percentual de partos por cesariana hoje no Brasil é de 56% (mais de 80% desse total são realizados na rede privada) e está relacionado a desfechos negativos para mães e bebês, quando tais cirurgias são desnecessárias: aumento da morbimortalidade materna, da prematuridade, de óbitos fetais e anormalidades placentárias, de problemas na amamentação e no desenvolvimento do sistema imunológico do recém-nascido. O percentual de 56% de cesarianas é elevadíssimo, segundo parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS) que, desde 1985, estabeleceu que tal proporção não deveria ultrapassar de 10 e 15% do total de nascimentos. Há casos em que os cuidados com a saúde da mãe e do bebê exigem o procedimento.

A naturalização do parto por cesárea e os motivos de sua preferência fazem parte da discussão sobre violência obstétrica (LEAL et al, 2012), tratada em outro artigo nesta mesma edição – Desrespeitos e abusos, maus tratos e violência obstétrica: um desafio para a epidemiologia e a saúde pública no Brasil As dificuldades para reduzir as referidas proporções ressaltam a sede de lucro das clínicas privadas, a falta de infraestrutura para atenção ao parto vaginal, o comodismo dos médicos e dos planos de saúde e a formação inadequada dos profissionais de saúde, dentre outros. Da parte da gestante, a situação socioeconômica impacta enormemente sua decisão por cesárea, pois muitos hospitais privados a preferem. Nos públicos, reclama-se da falta de leitos e insuficiência de recursos humanos. O Ministério da Saúde, apoiado, entre outros, pelo movimento de mulheres, tem tentado corrigir essa rota, por meio de Programas como o de Humanização no Pré-Natal e Nascimento (2000); da Diretriz de Atenção Integral à Gestante (2015); das Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal (2017); e do Projeto Aprimoramento e Inovação no Cuidado e Ensino em Obstetrícia e Neonatologia – Quando o feminino se torna uma questão para os serviços de saúde.

Oliveira et al (2022) analisaram 4.693 revisões sobre o tema e propõem a oferta de apoio contínuo, como a estratégia mais recomendada pela OMS há mais de 30 anos. Essa estratégia pode ser definida como a presença ininterrupta de uma pessoa com a parturiente durante todo o trabalho de parto e no parto, a fim de lhe oferecer conforto emocional, medidas para alívio da dor, informações sobre a progressão do trabalho e compatibilização de seus desejos com as práticas da equipe de saúde (BOHREN et al, 2017).

Ao analisar os efeitos positivos do apoio contínuo, observa-se nos estudos que ele se associa à redução de 25% a 51% de cesarianas. E é potencializado quando, ao lado da parturiente está uma pessoa na função de doula, o que reduz o uso de fórceps, de analgesia, de ocitocina e de duração do tempo do parto. Ainda, diminui intervenções clínicas e facilita o início da amamentação e da recuperação da mulher no puerpério. A análise da literatura mostra que o apoio contínuo é efetivo para mulheres de diferentes contextos sociodemográficos e classes sociais e que, seus benefícios, são econômicos também, pois reduzem custos hospitalares.

O apoio contínuo favorece, em especial, à população de baixa e média renda e previne a violência obstétrica, citada por uma em quatro mulheres brasileiras. Portanto, é preciso que o direito ao apoio contínuo seja uma prática efetiva em qualquer unidade de saúde do país, pública ou privada, do interior ou das capitais.

Leia mais

BOHREN, M.A, et al. Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database of Systematic Reviews [online]. 2017, vol. 7, CD003766 [viewed 14 February 2022]. https://doi.org/10.1002/14651858.CD003766.pub6. Available from: https://www.cochranelibrary.com/cdsr/doi/10.1002/14651858.CD003766.pub6/full

LEAL, M.C., et al. Birth in Brazil: national survey into labour and birth. Reproductive Health [online]. 2012, vol. 9, no.1 [viewed 14 February 2022]. https://doi.org/10.1186/1742-4755-9-15. Available from: https://reproductive-health-journal.biomedcentral.com/articles/10.1186/1742-4755-9-15

Para ler os artigos, acesse

LEITE, T.H., et al. Desrespeitos e abusos, maus tratos e violência obstétrica: um desafio para a epidemiologia e a saúde pública no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, vol. 27, no. 2, pp. 483-491 [viewed 14 February 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-81232022272.38592020. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/vWq9rQQg8B8GhcTb3xZ9Lsj/

OLIVEIRA, C.F., et al. Apoio contínuo na assistência ao parto para redução das cirurgias cesarianas: síntese de evidências para políticas. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, vol. 27, no. 2, pp. 427-439 [viewed 14 February 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-81232022272.41572020. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/PCcP8QgG6tpcCRxnJMfs6RK/abstract/?lang=pt

VILELLA, W.V. Quando o feminino se torna uma questão para os serviços de saúde. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, vol. 27, no. 2, pp. 414 [viewed 14 February 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-81232027272.21052021. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/Dc6wDtWnvmZb45PpqkrDX8y/?lang=pt

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MINAYO, M.C.S. and GUALHANO, L. Existe solução para o excesso de cesarianas no Brasil? [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2022 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2022/02/18/existe-solucao-para-o-excesso-de-cesarianas-no-brasil/

 

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