Como a pandemia de COVID-19 trouxe à tona a epidemia de obesidade

Rubia Carolina Farias Santos, Assistente Editorial, Fisioterapia em Movimento, PUCPR, Curitiba, PR, Brasil.

Com a eclosão da pandemia de COVID-19, em que o mundo se viu diante de um cenário distópico, vários problemas muitas vezes ignorados também deram as caras. Como consequência direta ao vírus ou às medidas preventivas adotadas pela maioria dos países, problemas raciais, sociais, políticos, econômicos e de saúde pública emergiram e impactaram a sociedade como um todo. Dentre estes, a obesidade, já antes considerada o maior problema mundial de saúde (CARNETHON, M.), passou a figurar entre uma das principais causas e consequências da COVID-19.

Perdendo apenas para a idade, a obesidade é o fator de risco mais significativo em casos graves de COVID-19, elevando os riscos de hospitalização e morte (SALES-PERES, S.H.C., et al.). Além disso, depressão pós-COVID-19, fadiga crônica e sintomas de estresse pós-traumático podem induzir o ganho de peso, já que existe uma relação direta entre obesidade e ansiedade (STEFAN, N., et al.). Há ainda a possibilidade de desenvolvimento da obesidade em pessoas não infectadas, uma vez que muitas relatam aumento da ansiedade e depressão, dificuldade em manter ou perder peso, diminuição de exercícios físicos, mudanças nos hábitos de compra e consumo de alimentos, e maior estresse ao comer (STEFAN, N., et al.).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um bilhão de pessoas apresenta sobrepeso, sendo 300 milhões obesos (CONDE, W.L., et al.). Estima-se que 13% da população mundial e 18,9 % da população brasileira seja obesa (MINISTÉRIO DA SAÚDE; WHO), e prevê-se que em 2025, 40% da população dos EUA, 30% da Inglaterra e 20% do Brasil apresentarão obesidade (CONDE, W.L., et al.). Além disso, dados provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que mais de 487 milhões de reais são gastos anualmente com internações e procedimentos ambulatoriais relacionados diretamente à doença (OLIVEIRA, M.L., et al.).

Imagem: jarmoluk.

Em abril do ano passado, após ficar internado em unidade de terapia intensiva por conta da COVID-19, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, lançou uma campanha de combate à obesidade. Com um índice 36 de massa corporal (valores superiores a 30 kg/m² são classificados como obesos), acredita-se que seu sobrepeso tenha contribuído para a gravidade da doença. Tenha sido ou não a “guerra” por ele travada inadequada em sua abordagem (JOU, C.), uma vez que se concentrou na responsabilidade pessoal em vez de atacar a pobreza e a desigualdade, verdadeiras raízes do problema (JOU, C.; CARNETHON, M.), o fato de ter levantado o diálogo público sobre o tema já é bastante válido.

Da mesma forma, esperando contribuir com a temática, a revista Fisioterapia em Movimento abre a edição de 2021 com dois artigos correlatos: “Quality of life and its relationship with different anthropometric indicators in adults with obesity” (TOZETTO, W.R. et al.),  que fala sobre um estudo do Núcleo de Pesquisa em Exercício Físico e Doenças Crônicas Não Transmissíveis, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), sobre a qualidade de vida e sua relação com diferentes indicadores antropométricos em adultos com obesidade; e o artigo “Relationship between peak expiratory flow and impaired functional capacity in obese individual” (MOREIRA, G.M.S., et al.), o qual conta com pesquisadores de Minas Gerais e do Rio de Janeiro que avaliaram a relação entre o pico de fluxo expiratório e o prejuízo da capacidade funcional em obesos. No primeiro (TOZETTO, W.R., et al.) ao concluir-se qual o indicador antropométrico com maior força de predição do componente físico da qualidade de vida, permite-se aos profissionais da área da saúde maior compreensão da sensação de saúde dos pacientes com obesidade e, consequentemente, intervenções mais eficazes sobre a qualidade de vida dessa população. No segundo (MOREIRA, G.M.S., et al.), que contou com 30 participantes, inicialmente procedeu-se a avaliação por meio de anamnese, com descrição dos dados pessoais, hábito de vida, averiguação dos sinais vitais e medidas antropométricas. A avaliação da função ventilatória contou com a análise do pico de fluxo expiratório (PFE), utilizando o aparelho portátil peak flow meter, em que o participante permaneceu sentado em uma cadeira sem braços fixos, mantendo cabeça em posição neutra, mão esquerda apoiada na parte anterior da coxa e mão direita segurando o equipamento. Solicitou-se a realização de uma manobra expiratória forçada a partir da inspiração máxima, ao nível da capacidade pulmonar total, executada pelo menos três vezes e computando-se o maior valor obtido. A avaliação da capacidade funcional foi realizada por meio da realização do teste de caminhada de seis minutos (TC6′), executado em um espaço plano, com superfície dura, coberto, com extensão de 30 metros, marcados metro a metro e com dois cones delimitadores. Os participantes foram instruídos a andar de um extremo ao outro da pista com a maior velocidade possível, porém sem correr, em um período de seis minutos. A cada minuto eram proferidas frases padronizadas de encorajamento como ”faltam somente alguns minutos” e ”você está indo muito bem”. Parâmetros como frequência cardíaca e saturação de oxigênio foram averiguados com o participante sentado após 5 minutos em repouso, durante cada minuto do TC6′ e após sua execução. Constatou-se, após análise dos dados, que o menor pico de fluxo expiratório se correlaciona diretamente à diminuição da capacidade funcional e conclui-se que a inclusão dos métodos avaliativos utilizados pode contribuir para melhor análise da condição respiratória e funcional, além de auxiliar na prescrição de exercícios.

Referências

BRASIL. Vigitel Brasil 2017: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília: Ministério da Saúde; 2018. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2017_vigilancia_fatores_riscos.pdf

CARNETHON, M. The Biggest Health Problem: Obesity [online]. Sci Am, 2019 [viewed 26 January 2021]. Available from: https://blogs.scientificamerican.com/observations/the-biggest-health-problem-obesity/

CONDE W. L. et al. O risco de incidência e persistência da obesidade entre adultos brasileiros segundo seu estado nutricional ao final da adolescência. Rev Bras Epidemiol [online]. 2011, vol. 14, supl 1, pp. 71-79. https://doi.org/10.1590/S1415-790X2011000500008.Available from: http://ref.scielo.org/wwsj35

JOU, C. Another Misguided ‘War’ on Obesity [online]. Sci Am, 2020 [viewed 26 January 2021]. Available from: https://www.scientificamerican.com/article/another-misguided-war-on-obesity/

OLIVEIRA, M. L. et al. Direct healthcare cost of obesity in Brazil: An application of the cost-of-illness method from the perspective of the public health system in 2011. PLoS One [online]. 2015, vol. 10, no. 4, e0121160 [viewed 26 January 2021]. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0121160. Available from: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0121160

SALES-PERES, S. H. C. et al. Coronavirus (SARS-CoV-2) and the risk of obesity for critically illness and ICU admitted: Meta-analysis of the epidemiological evidence. Obes Res Clin Pract [online]. 2020, vol. 14, n. 5, pp. 389-397 [viewed 26 January 2021]. https://doi.org/10.1016/j.orcp.2020.07.007. Available from: https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S1871403X2030555X

STEFAN, N. et al. Global pandemics interconnected – obesity, impaired metabolic health and COVID-19. Nat Rev Endocrinol [online]. 2021 [viewed 26 January 2021]. https://doi.org/10.1038/s41574-020-00462-1. Available from: https://www.nature.com/articles/s41574-020-00462-1

Fact sheets: Obesity and overweight [online]. World Health Organization (WHO), 2018 [viewed 26 January 2021]. Available from: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesityand-overweight

Para ler os artigos, acesse

TOZETTO, W. R. et al. Quality of life and its relationship with different anthropometric indicators in adults with obesity. Fisioter. mov. [online]. 2021, vol.34, e34102, ISSN 1980-5918 [viewed 03 March 2021]. https://doi.org/10.1590/fm.2021.34102. Available from: http://ref.scielo.org/xgvnpj

MOREIRA, G. M. S. et al. Relationship between peak expiratory flow and impaired functional capacity in obese individuals. Fisioter. mov [online].  2021, vol. 34, e34105 [viewed 03 March 2021]. https://doi.org/10.1590/fm.2021.34105. Available from: http://ref.scielo.org/4chzr2

Link Externo

Fisioterapia em Movimento: https://periodicos.pucpr.br/index.php/fisio/index

Fisioterapia em Movimento – FM: https://www.scielo.br/fm

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SANTOS, R. C. F. Como a pandemia de COVID-19 trouxe à tona a epidemia de obesidade [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2021 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2021/03/08/como-a-pandemia-de-covid-19-trouxe-a-tona-a-epidemia-de-obesidade/

 

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