Imagem corporal, beleza e nutrição na adolescência

Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiza Gualhano, Editora assistente da Revista Ciência & Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil. 

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A edição temática vol. 29, no. 2 (2024) do perióldico Ciência & Saúde Coletiva promoveu um diálogo sobre a noção de beleza e a concepção de saúde. É na esteira dessa discussão que aqui se apresenta uma resenha do artigo Insatisfação com a imagem corporal e baixa aderência ao padrão alimentar ocidental em escolares: um estudo transversal, escrito por Ruas et al. (2024), que compõe o mesmo número temático e aborda o tema sob a ótica dos hábitos alimentares. 

A importância deste texto é inegável: primeiro porque a comida e a bebida são uns dos principais combustíveis da felicidade ou da infelicidade com o corpo que se tem; segundo porque é, particularmente, a partir da pré-adolescência que se acirra e se aprofunda a visão sobre o padrão hegemônico de beleza, uma prisão voluntária na qual muitas pessoas se acorrentam; e, por fim, porque o rápido desenvolvimento físico e de caracteres sexuais na adolescência imprimem aumento das necessidades nutricionais que, quando bem orientadas, podem alicerçar a adoção de práticas alimentares saudáveis (Das et al., 2017; Roy et al., 2018).

A satisfação com o próprio corpo tem sido estudada sob a ótica da beleza e da imagem corporal, construto multifacetado que envolve autopercepção, atitudes, crenças, comportamentos, pensamentos e sentimentos relacionados ao corpo (Griffits et al., 2017). Adolescentes com autopercepção negativa de sua imagem têm maior risco de desenvolver baixa autoestima e baixa qualidade de vida (Amaral et al., 2017), ansiedade (Vanucci et al., 2018), depressão (Blashill et al., 2014) e transtornos alimentares (Alvarenga et al., 2015) e doenças cardiovasculares (Oliveira et al., 2016). 

Esse fenômeno ressalta um paradoxo do mundo contemporâneo que, de um lado, prega a adoção de práticas e comportamentos restritivos visando conseguir padrões de beleza inatingíveis (Dukley et al., 2001; Stice et al., 2002), e de outro, estimula o sedentarismo e o acesso fácil a alimentos altamente calóricos e preditores de obesidade. 

Por meio de um estudo transversal com 385 escolares de 10 a 17 anos de estabelecimentos públicos de Salvador, por meio de dois recordatórios alimentares de 24 horas, os pesquisadores identificaram 546 alimentos consumidos por eles, que foram agrupados em 160 itens com base na similaridade nutricional e os hábitos alimentares próprios do Nordeste brasileiro. 

A média do consumo diário dos estudantes foi de 1954 calorias. Os grupos de alimentos mais calóricos consumidos foram: pão (14.29%), biscoitos (8.38%), carne vermelha (6.72%), óleos e gorduras (6.58%), massas (5.9%) e salgadinhos e frituras (5.77%). O padrão mais frequente é composto por biscoitos e cereais açucarados, chocolates, embutidos, iogurtes, queijos, leites, massas, salgados assados, molhos industrializados e pães. 

Em relação à imagem corporal associada à alimentação, o estudo mostrou que 50.4% dos jovens relataram desejo de ter uma silhueta menor e 27.5%, maior. Ou seja, no grupo estudado há uma prevalência de 77.9% de adolescentes de 10 a 17 anos insatisfeitos com sua imagem corporal. Observou-se que querer ter uma silhueta menor se associou positivamente a um padrão alimentar não saudável, independentemente de idade, sexo, estado antropométrico e tempo de tela. Ou seja, esse grupo consome alimentos com alta densidade calórica e com elevada concentração de açúcares e gorduras, molhos industrializados, massas, salgados assados e embutidos. Os autores chamam a atenção para o fato de a comida típica baiana já estar contaminada pelos ultraprocessados. 

O sobrepeso e a obesidade aumentam as chances de o adolescente ter insatisfação corporal e adotar práticas alimentares pouco saudáveis, levando-os a um ciclo perigoso para a saúde física e mental. Em resumo, no mundo contemporâneo, a saúde, mais que nunca, se associa ao estilo de vida.

Referências

ALVARENGA, M.S. and KORITAR, P. Atitude e comportamento alimentar – determinantes de escolhas e consumo. In: M.S., et al. (Org.). Nutrição comportamental. 1ª ed. Barueri: Manole. 2015. p. 23-50.

AMARAL, A.C.S. and FERREIRA, M.E.C. Body dissatisfaction and associated factors among Brazilian adolescents: A longitudinal study. Body Image [online]. 2017, vol. 22, pp. 32-38 [viewed 06 March 2024]. https://doi.org/10.1016/j.bodyim.2017.04.006. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28570920/  

BLASHILL, A.J. and WILHELM, S. Body Image Distortions, Weight, and Depression in Adolescent Boys: Longitudinal Trajectories into Adulthood. Psychology of Men Masculinities [online]. 2014, 1, vol. 15, no, 4, pp. 445-451 [viewed 06 March 2024]. https://doi.org/10.1037%2Fa0034618. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4219600/ 

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DUNKLEY, T.L., WERTHEIM, E.H. and PAXTON, S.J. Examination of a model of multiple sociocultural influences on adolescent girls’ body dissatisfaction and dietary restraint. Adolescence [online]. 2001, vol. 36, no. 142, pp. 265-79 [viewed 06 March 2024]. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/11572305/ 

GRIFFITHS, S., et al. Differences in Quality of Life Impairment Associated With Body Dissatisfaction in Adolescents. Journal of Adolescent Health. 2017, vol. 61, no. 1, pp. 77-82.

OLIVEIRA SILVA, D.F., OLIVEIRA, L.C. and LIMA, S.C.V.C. Padrões alimentares de adolescentes e associação com fatores de risco cardiovascular: uma revisão sistemática. Ciência & Saúde Coletiva [online].  2016, 21, no. 4, pp. 1181-1196 [viewed 06 March 2024]. https://doi.org/10.1590/1413-81232015214.08742015. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/6rytJwJsz6sLdx59XRRZ77j/ 

ROY, P.G. and STRETCH, T.  Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Child and Adolescent Federally Funded Nutrition Assistance Programs. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics [online]. 2018, vol. 118, vol. 8, pp.1490-1497 [viewed 06 March 2024]. https://doi.org/10.1016/j.jand.2018.06.009. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212267218308852  

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STICE, E and SHAW, H.E. Role of body dissatisfaction in the onset and maintenance of eating pathology: A synthesis of research findings. Journal of Psychosomatic Research [online]. 2002, vol. 53, no. 5, pp. 985-993 [viewed 06 March 2024]. https://doi.org/10.1016/s0022-3999(02)00488-9. Available from: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/12445588/  

Vannucci, A. and Ohannessian, C.M. Body Image Dissatisfaction and Anxiety Trajectories During Adolescence. Journal of Clinical Child and Adolescent Psychology [online]. 2018, vol. 47, no. 5, pp. 785-795 [viewed 06 March 2024]. https://doi.org/10.1080%2F15374416.2017.1390755. Available from:  https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6072626/ 

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Para ler a edição temática completa acesse: https://www.scielo.br/j/csc/i/2024.v29n2/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

GUALHANO, L. and MINAYO, M.C.S. Imagem corporal, beleza e nutrição na adolescência [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2024 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2024/03/06/imagem-corporal-beleza-e-nutricao-na-adolescencia/

 

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