IA pode transformar o cuidado com a saúde cardiovascular feminina, mas escancara lacunas estruturais

Juliana Martin Stern, jornalista da assessoria de imprensa da Sociedade Brasileira de Cardiologia, São Paulo, SP, Brasil.

Logo do periódico International Journal of Cardiovascular ScienceO uso de inteligência artificial (IA) tem o potencial de transformar os cuidados com a saúde em todas as fases da vida da mulher. No contexto das doenças cardiovasculares, a tecnologia aparece como uma ferramenta capaz de reduzir gargalos relacionados à mortalidade e melhorar a qualidade de vida de milhões de mulheres. No entanto, ao depender de bases de dados, vieses e a falta de representação feminina em estudos clínicos representam desafios para aplicações reais.

O cenário é apresentado em uma nova revisão de escopo nomeado How Artificial Intelligence Can Transform Women’s Healthcare Across All Life Stages, publicada no periódico International Journal of Cardiovascular Sciences (IJCS, vol. 39, 2026), que se propôs a sintetizar as principais aplicações da IA na saúde da mulher em diferentes estágios da vida. Realizado por médicos pesquisadores do Hospital Santa Izabel, de Salvador, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o trabalho identificou aplicações que variam desde o apoio a mudanças de estilo de vida e autocuidado até a oferta de novas opções terapêuticas e ferramentas clínicas baseadas em IA para educação e autogestão da saúde.

Na infância e adolescência, os principais usos incluem a capacidade de prever riscos futuros à saúde, integrando dados genéticos, ambientais, comportamentais e até mesmo de dispositivos vestíveis (wearables) para detectar desequilíbrios hormonais. Além disso, a IA pode ter papel crucial no monitoramento da saúde menstrual e da puberdade, auxiliando as jovens a compreenderem melhor seus corpos e ciclos. O trabalho também destaca usos para o rastreamento de fatores de risco específicos dessa fase reprodutiva, como a síndrome do ovário policístico e a menarca precoce, e contribui para a educação em saúde sexual e reprodutiva, subsidiando estratégias de prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e gravidez na adolescência.

 

 

Na fase adulta, especialmente durante a gravidez, a IA tem sido usada no aprimoramento da predição e seleção de espermatozoides, na otimização de modelos de fertilização in vitro, no rastreamento gestacional e no manejo da infertilidade. Entre os destaques, o artigo aponta que algoritmos avançados aumentam a precisão de calendários menstruais e permitem a personalização de tratamentos de fertilidade, desde a seleção de gametas até a escolha do embrião, elevando as taxas de sucesso. Além disso, a IA pode ser grande aliada na redução da mortalidade materna por doenças cardiovasculares, responsáveis por mais de 30% dos óbitos, a partir da detecção precoce da gravidez, do rastreamento genético e do monitoramento em tempo real para mudanças clínicas, o que possibilita prever riscos como pré-eclâmpsia, diabetes gestacional e parto prematuro.

Já na peri e pós-menopausa, os casos de uso abordados envolvem a estratificação de risco personalizada para doenças cardiovasculares e complicações como osteoporose e declínio cognitivo, permitindo intervenções preventivas precoces. Além disso, a IA pode ser aplicada na previsão de condições como a depressão, que afetam entre 6 e 24% das mulheres nessa fase da vida, e no fornecimento de informações relevantes sobre sintomas através de assistentes virtuais (chatbots). Contudo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para o risco de etarismo no uso dessas novas tecnologias na área da saúde, enfatizando a necessidade de medidas técnicas e legais para mitigar esse risco e maximizar os benefícios para a população mais velha à medida que a adoção da IA se expande.

O porém apontado pelo trabalho é que soluções de IA treinadas com dados enviesados ou que não representam adequadamente mulheres e grupos historicamente marginalizados podem exacerbar as disparidades na saúde. O que, por sua vez, leva a diagnósticos imprecisos, atrasos no tratamento e piores resultados clínicos. Estudos referenciados na revisão mostraram que alguns modelos usados para a previsão de risco de doenças cardiovasculares apresentaram desempenho inferior em mulheres. Isso significa que a IA se mostrou menos eficaz na correta identificação de mulheres em risco, o que pode resultar em diagnósticos tardios ou subestimados.

Para superar esse desafio, o artigo conclui que a tecnologia não deve ser aplicada sem ressalvas. Para expandir os benefícios da IA no cuidado com a saúde cardiovascular feminina, é essencial investir em capacitação, infraestrutura digital e políticas públicas que promovam inclusão e acesso equitativo. Pesquisas futuras devem focar no desenvolvimento de algoritmos adaptados às realidades locais, considerando a diversidade cultural, socioeconômica e epidemiológica, e explorando modelos capazes de operar com dados limitados ou de qualidade variável.

Para ler o artigo, acesse

ESPÍNDOLA, L.N, et al. How Artificial Intelligence Can Transform Women’s Healthcare Across All Life Stages. Int. J. Cardiovasc. Sci. [online]. 2026, vol. 39, e20250033 [viewed 28 May 2026]. https://doi.org/10.36660/ijcs.20250033. Available from: https://www.scielo.br/j/ijcs/a/wmbf5z6GJDJtdNb4prHZc8g/

Links externos

How Artificial Intelligence Can Transform Women’s Healthcare Across All Life Stages

International Journal of Cardiovascular Sciences (IJCS) – SciELO

International Journal of Cardiovascular Sciences

Sociedade Brasileira de Cardiologia

Sociedade Brasileira de Cardiologia – Artigos Recentes

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

STERN, J.M. IA pode transformar o cuidado com a saúde cardiovascular feminina, mas escancara lacunas estruturais [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2026 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2026/05/28/ia-pode-transformar-o-cuidado-com-a-saude-cardiovascular-feminina-mas-escancara-lacunas-estruturais/

 

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