Tuberculose — doença silenciosa que afeta crianças e adolescentes no Brasil

Por Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe e Luiza Gualhano, Editora assistente, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Ciência & Saúde Coletiva (vol. 25, no. 8), apresenta o artigo “Tuberculose em crianças e adolescentes: uma análise epidemiológica e espacial no estado de Sergipe, Brasil, 2001-2017”, de Beatriz Almeida Santos e colaboradores que trazem ao conhecimento dos leitores dados de uma epidemia silenciosa que se espalha pelo Brasil e pelo globo terrestre, contextualizando o problema, mostrando que, vergonhosamente, segundo a Organização Mundial de Saúde (WHO, 2017), o Brasil está entre os 22 países com maior número de casos (82% dos que ocorrem no planeta) e é responsável por 75% dos que atingem o grupo de 0 a 19 anos.

Os pesquisadores encontraram uma taxa média de incidência de 5,9/100.000 em crianças e jovens de Sergipe, sendo a faixa etária mais atingida a de 15 a 19 anos (76,4%). A tuberculose é uma das 10 principais causas de morte nesse grupo etário no mundo. No Brasil, de acordo com o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), em 2015 (BRASIL, 2017), foram registrados 83.617 casos, dos quais 7.106 (8,5%) ocorreram em menores de 19 anos de idade.

O foco principal da doença são as regiões Norte e Nordeste do Brasil, mas ela não poupa nenhuma região ou grande cidade (VENÂNCIO; TUAN; NASCIMENTO, 2015; CECÍLIO et al., 2018). Por exemplo, no Rio de Janeiro, a Rocinha é um foco sobejamente conhecido (PEREIRA et al., 2015). A cada ano, são notificados no Brasil aproximadamente 70 mil casos novos, e registradas 4,5 mil mortes em decorrência da doença. Em Sergipe, foram identificados 822 casos novos de tuberculose em crianças e adolescentes no período de 2001 a 2017, com predomínio para jovens do sexo masculino (52,6%), de raça/cor parda (64,0%) que residem na zona urbana (78,4%) (SANTOS et al., 2020). A incidência que chegou a 8,10/100.000 em 2006, e mostrou-se crescente nos grupos mais avançados de idade. Por haver um protocolo de tratamento muito bem estabelecido (BRASIL, 2011), os autores observaram um elevado percentual de cura dos infectados, chegando a 93,8% em 2003. No entanto, há um preocupante índice de abandono dos cuidados prescritos, o que atingiu 14,6% em 2016.

A tuberculose é mais um tipo de problema sanitário que tem profundas raízes sociais. Quando atinge crianças e adolescentes, os especialistas o tratam como um “evento sentinela” (BRASIL, 2017; LOPES, 2007) porque indica uma infecção proveniente de recente contato com algum adulto portador do bacilo, não detectado e não tratado precocemente. É sobejamente conhecida a correlação estatisticamente significativa da incidência da doença com variáveis relacionadas à renda, escolaridade, densidade de pessoas por dormitório e domicílio, portanto às precárias condições de vida. O silêncio sobre a tuberculose, problema que representa um triste retrato do país no mundo, é sintomático da persistente e naturalizada desigualdade social, pano de fundo de muitos males do Brasil.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Indicadores prioritários para o monitoramento do Plano Nacional pelo Fim da Tuberculose como Problema de Saúde Pública no Brasil. Boletim Epidemiológico [online]. 2017, vol. 48, no. 8, ISSN: 2358-9450 [viewed 21 August 2020]. Available from: http://www.saude.gov.br/images/pdf/2017/marco/23/2017-V-48-N-8-Indicadores-priorit–rios-para-o-monitoramento-do-Plano-Nacional-pelo-Fim-da-Tuberculose-como-Problema-de-Sa–de-P–blica-no-Brasil.pdf

BRASIL. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Controle da Tuberculose. Manual de recomendações para o controle da tuberculose no Brasil. (Série A. normas e manuais técnicos). Brasília: Ministério da Saúde, 2011.

CECÍLIO, H.P.M., et al. Tendência da mortalidade por tuberculose no estado do Paraná, Brasil – 1998 a 2012. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2018, vol. 23, no. 1, pp.241-248. ISSN: 1678-4561 [viewed 21 August 2020]. DOI: 10.1590/1413-81232018231.25242015. Available from: http://ref.scielo.org/ks562w

LOPES, A.J., et al. Características da tuberculose em adolescentes: uma contribuição para o programa de controle. Rev. Bras. Pneumol. Sanit. [online]. 2007, vol. 15, no. 1, pp. 7-14, ISSN 1982-3258 [viewed 21 August 2020]. Available from: http://scielo.iec.gov.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1982-32582007000100003&lng=pt&nrm=iso

PEREIRA, A.G.L., et al. Distribuição espacial e contexto socioeconômico da tuberculose, Rio de Janeiro, Brasil. Rev. Saúde Pública [online]. 2015, vol. 49, 48, ISSN: 1518-8787 [viewed 21 August 2020]. DOI: 10.1590/S0034-8910.2015049005470. Available from: http://ref.scielo.org/ck4q48

VENÂNCIO, T.S., TUAN, T.S. and NASCIMENTO, L.F.C. Incidência de tuberculose em crianças no estado de São Paulo, Brasil, sob enfoque espacial. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2015, vol. 20, no. 5, pp. 1541-1547, ISSN: 1678-4561 [viewed 21 August 2020]. DOI: 10.1590/1413-81232015205.14672014. Available from: http://ref.scielo.org/nsdhk6

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global Tuberculosis Report. Genève: WHO, 2017.

Para ler o artigo, acesse

SANTOS, B. A., et al. Tuberculose em crianças e adolescentes: uma análise epidemiológica e espacial no estado de Sergipe, Brasil, 2001-2017. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2020, vol. 25, no. 8, pp. 2939-2948, ISSN: 1678-4561 [viewed 21 August 2020]. DOI: 10.1590/1413-81232020258.25692018. Available from: http://ref.scielo.org/xbn53z

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MINAYO, M.C.S. and GUALHANO, L.A. Tuberculose — doença silenciosa que afeta crianças e adolescentes no Brasil [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2020 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2020/08/21/tuberculose-doenca-silenciosa-que-afeta-criancas-e-adolescentes-no-brasil/

 

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