Somos responsáveis por nossa saúde individual e coletiva

Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiza Gualhano, Editora assistente da Revista Ciência & Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

A edição 26.4.2021 da Revista Ciência & Saúde Coletiva traz relevantes informações sobre os riscos e a prevalência de doenças crônicas na população, a partir de duas Pesquisas Nacionais de Saúde (PNS), a primeira realizada em 2013, a segunda em 2019 e de outros inquéritos (MALTA, et al., 2021). Comenta-se aqui o artigo “Monitoramento e projeções das metas de fatores de risco e proteção para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis nas capitais brasileiras” escrito por Silva, et al. (2021).

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) são atualmente as principais causas de morte no mundo. Estima-se que sejam responsáveis por 71% da mortalidade global (WHO, 2018); por 80,7% dos óbitos nas Américas (PAHO, 2019), sendo nessa região, associadas também a 38,9% das mortes prematuras. No Brasil elas respondem por 74% da mortalidade geral.

Ao contrário das doenças infecciosas, geralmente associadas a vírus, bactérias e parasitas, o aumento das doenças crônicas não transmissíveis está relacionado com os estilos, as condições e as situações de vida contemporânea. Dentre os fatores que a elas se associam, citam-se principalmente o tabagismo, o abuso de álcool, a ingestão de alimentos que induzem à obesidade e a inatividade física. Observa-se também que o baixo nível socioeconômico da população acentua os fatores de risco, trazendo para o centro da cena, o drama das desigualdades sociais (MALTA, et al., 2018).

Autor: Raquel Portugal. Fonte: Fiocruz Imagens.

Tendo em vista esse quadro da saúde, o Ministério da Saúde, desde 2006 (MS, 2006; 2011) vem empreendendo inúmeras formas de alerta a respeito das evidências dos fatores de risco que levam à emergência e à prevalência das doenças crônicas. Ao mesmo tempo criou programas de monitoramento sobre tais fatores, numa proposta de acompanhamento de tendências de 2006 a 2025. Dentre as iniciativas cita-se o Inquérito Telefônico (o VIGITEL) sobre prevalências de fumantes, de obesidade, de prática de atividade física, de consumo de frutas e hortaliças e de bebidas alcoólicas, objeto desta resenha. Os outros instrumentos são: a realização periódica da Pesquisa Nacional de Saúde; e pesquisa sobre Saúde Escolar (PeNSE) ambas em parceria com o IBGE, com o intuito de prevenir os agravos desde a infância. O artigo de Silva, et al. (2021) analisou apenas os resultados do VIGITEL. Os outros temas são foco de muitos outros artigos dentre os quais os assinalados nos editoriais de Marcinko (2016); Duarte, et al. (2018); Malta, et al. (2021).

Os resultados do VIGITEL se dividem em duas etapas: 2006 a 2014 e 2015 a 2019, quando foi interrompido. Entre 2006 e 2014, a partir de um intenso ativismo do Ministério da Saúde, houve redução de fumantes e de usuários de bebidas alcoólicas; aumento do consumo de frutas e hortaliças, e de pessoas fazendo atividade física. No entanto, a obesidade que já vinha em crescimento, continuou se elevando. Na segunda etapa, ou seja, a partir de 2015, tempo histórico que coincide com uma grave crise econômica e política no país, a maioria dos indicadores piorou (MALTA, et al., 2018).

Em resumo, de 2006 (quando começou o monitoramento) até 2019, nas capitais brasileiras ocorreu redução da prevalência de fumantes, aumentou o consumo de frutas e hortaliças e da prática de atividades física. Houve estabilidade do consumo abusivo de bebidas alcoólicas e cresceu a obesidade. Os indicadores demonstram pior desempenho entre 2015 a 2019 em comparação com 2006 a 2014: menor taxa de redução dos fumantes, declínio do consumo de frutas e hortaliças, estabilidade da prática de atividade física e aumento do consumo abusivo de álcool. As projeções para 2025 evidenciam que as metas de deter o crescimento da obesidade, reduzir o uso abusivo de bebidas alcoólicas e aumentar o consumo de frutas e hortaliças não serão alcançadas, caso não haja uma pró-atividade dos gestores de saúde.

Esta resenha ressalta a urgência do protagonismo do Ministério da Saúde para que a população brasileira viva mais, melhor e mais saudável. Pensando no momento difícil pelo qual o Brasil está passando com a pandemia da COVID-19, é importante ressaltar que suas principais vítimas são as pessoas com comorbidades em cujo diagnóstico se associam doenças do coração, diabetes, pressão alta e obesidade. É preciso olhar para a frente e atuar, valorizando as evidências que os estudos epidemiológicos e sociais apontam!

Referências

DUARTE, E. and FURQUIM, M. Editorial PeNSE 2015. Rev. bras. epidemiol. [online]. 2018, vol.21, suppl.1, e180001 [viewed 23 April 2021]. https://doi.org/10.1590/1980-549720180001.supl.1. Available from: http://ref.scielo.org/k3k2sd

MACINKO, J. A Pesquisa Nacional de Saúde 2013: um retrato instantâneo da saúde no país. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2016, vol.21, no.2, pp.324-326 [viewed 23 April 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232015212.23432015. Available from: http://ref.scielo.org/yqvhvp

MALTA, D. C., et al. Fiscal austerity measures hamper noncommunicable disease control goals in Brazil. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2018, vol.23, no.10, pp.3115-3122 [viewed 23 April 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-812320182310.25222018. Available from: http://ref.scielo.org/jd5x79

MALTA, D. C., SZWARCWALD, C. L. and PEREIRA, C. A. Pesquisa Nacional de Saúde, análises laboratoriais e monitoramento de metas de redução de Doenças Crônicas. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2021, vol.26, no.4, pp.1190-1190 [viewed 23 April 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232021264.01142021. Available from: http://ref.scielo.org/sd8fbz

Ministério da Saúde. Plano de ações estratégicas para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil 2011-2022 [online].  Portal de Boas Práticas em Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente [viewed 23 April 2021]. Available from: https://portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br/biblioteca/plano-de-acoes-estrategicas-para-o-enfrentamento-das-doencas-cronicas/

Ministério da Saúde. Política Nacional de Promoção da Saúde. Brasília: MS, 2006. Available from: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_promocao_saude_3ed.pdf

Pan American Health Organization. Noncommunicable diseases in the region of the Americas: facts and figures [online]. Washington: PAHO, 2019.

SILVA, A. G., et al. Monitoramento e projeções das metas de fatores de risco e proteção para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis nas capitais brasileiras. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2021, vol.26, no.4, pp.1193-1206 [viewed 23 April 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232021264.42322020. Available from: http://ref.scielo.org/cnv4kh

World Health Organization. Statistics 2018: monitoring health for the SDGs, sustainable development goals. Geneva: WHO, 2020.

Para ler os artigos, acesse

SILVA, A. G., et al. Monitoramento e projeções das metas de fatores de risco e proteção para o enfrentamento das doenças crônicas não transmissíveis nas capitais brasileiras. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2021, vol.26, no.04, pp.1193-1206 [viewed 23 April 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232021264.42322020. Available from: http://ref.scielo.org/h8h8wm

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MINAYO, M. C. S. and GUALHANO, L. Somos responsáveis por nossa saúde individual e coletiva [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2021 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2021/04/26/somos-responsaveis-por-nossa-saude-individual-e-coletiva/

 

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