Atenção primária: o soft power do sus

Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiza Gualhano, Editora assistente da Revista Ciência & Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

No artigo “Laboratório de Inovação na Atenção Primária”, Ranzi e colaboradores (2021) contam a história de uma ação concentrada e focada em ampliar e qualificar a Atenção Primária à Saúde (APS), em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, cujos principais aspectos serão aqui apresentados, a começar pelos objetivos: apoiar ações cientificamente embasadas e aplicáveis na prática, principalmente pela adoção de tecnologias assistenciais, de gestão e de comunicação que fortaleçam o SUS. Segundo Tasca et al (2020 a e b) durante o percurso de sua história no Brasil, a APS registra quatro conjuntos de inovações: (`1) “teletrabalho”, que vem se consolidando na rede de serviços com os termos “telemedicina/telessaúde”; (2) fortalecimento da formação profissional por meio de plataformas virtuais, residências multiprofissionais e mestrados profissionais; (3) avaliação com uso de novos formatos/métodos de coleta de dados como tablets ou meios remotos; (4) novas formas de comunicação por meio de mídias sociais que apoiam a gestão.

As inovações que vêm acontecendo na construção da APS não são tarefa fácil, embora engrandeçam o SUS porque partem da premissa de que é preciso levar os serviços de saúde cada vez mais perto para os cidadãos, com qualidade e efetividade (Starfield et al, 2005). Implementar adequadamente a APS significa remover vários dispositivos contrários, dentre eles, crenças hegemônicas que tornam os hospitais e as emergências os lugares preferidos da população para buscar atendimento, criando-se assim um modelo viciado, concentrado na doença e com enorme desperdício de recursos frente a casos que poderiam ser resolvidos nos equipamentos locais de prevenção e assistência.

Imagem: Acervo OTICS Campo Grande MS.

O caso aqui mencionado é o projeto INOVAAPS (Ranzi et al, 2021) que vem sendo realizado em Campo Grande desde 2020 e recobre uma população de mais de 895.982 pessoas, o que representa cerca de 32% do total populacional do estado. A proposta visa a reorientar o modelo assistencial, a ressignificar os processos de trabalho, a qualificar práticas, e a investir na formação dos profissionais em serviço e em cursos de Pós-Graduação em Saúde e em Residência (Tasca et al, 2020a). Para acompanhamento das atividades em implantação e nas mudanças, o Observatório da Atenção Primária de Campo Grande também apoia ações estratégicas de vigilância em saúde, serviços de telemedicina e realiza pesquisas avaliativas. Do ponto de vista conceitual, as ações realizadas até o momento abrangem inovação de produtos, processos e organizacionais (Nodari et al, 2015).

Eis alguns dos primeiros resultados narrados por Ranzi et al (2021): ampliação das Unidades Básicas de Saúde (UBS) de 52% para 75%; redução de internações por causas sensíveis e tratáveis nas UBS; melhora no cuidado com pessoas em condições crônicas por diabetes e hipertensão arterial e nos indicadores de saúde materno-infantil. Além dessas evidências, processos e relações estão sendo desenvolvidos: elaboração de diagnóstico situacional dos territórios sob-responsabilidade da unidade; planejamento estratégico participativo; implantação da Carteira de Serviços de cada unidade; criação da Caderneta do Usuário para o registro e acompanhamento dos procedimentos relativos a seu estado de saúde; suporte às inovações por meio de disponibilização de equipamentos e insumos necessários; kits de apoio para residentes e preceptores, seguro estudantil, kit instrumental para as Unidades de Saúde; ações formativas como sessões clínicas e seminários presenciais e virtuais; adoção de procedimentos  antes realizados por atenção especializada; redução do turnover nas equipes; maior atenção aos usuários que necessitam de visitas e atendimentos domiciliares; apoio às UBS para análise e gestão de informações.

Mesmo com todo empenho dos participantes do projeto, como as UBS estão situadas em locais de crescimento acelerado, onde há elevados níveis de desemprego e desigualdades sociais, o acesso aos serviços de saúde continua sendo um ponto crítico (Tasca et al, 2020b). E do ponto de vista do funcionamento interno observam-se dificuldades relacionais, organizacionais e estruturais, todas habituais em processos de mudança: resistência de alguns gestores e profissionais; disputas relacionais; dificuldades de articulação entre serviços; inconsistência de cadastro de usuários; dificuldades para a implementação da Carteira de Serviços; problemas na integração ensino-serviço; dificuldades para o trabalho em equipe interprofissional; inadequação da estrutura física e da ambiência de algumas Unidades de Saúde; precarização do trabalho dos profissionais e agentes de saúde, embora o projeto tenha como uma de suas prioridades a formação e a inserção profissional dos que atuam na APS (Carvalho et al, 2021).

As inovações no campo da APS requerem muito mais investimento. Porém, entende-se que iniciativas inovadoras constituem movimentos de “vir a ser” e não se estabelecem “a priori”. Ainda mais quando se observam gigantescas descobertas biomédicas e, ao contrário, pouca inovação nos processos de expansão da oferta e aprofundamento na qualidade dos serviços e dos cuidados.

Referências

CARVALHO, M. A. P. and GUTIÉRREZ, A. C. Quinze anos da Residência Multiprofissional em Saúde da Família na Atenção Primária à Saúde: contribuições da Fiocruz. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2021, vol.26, no.06, pp.2013-2022 [viewed 26 July 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232021266.44132020. Available from: http://ref.scielo.org/2ppwdk

NODARI, C. H., et al. The framework of the practice of innovation in primary healthcare: a case study. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2015, vol.20, no.10, pp.3073-3086 [viewed 26 July 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-812320152010.03262015. Available from: http://ref.scielo.org/ntrpzt

STARFIELD, B., SHI, L. and MACINKO, J. Contribution of Primary Care to Health Systems and Health. The Milbank Quarterl [online]. 2005, vol.83, no.03, pp.457-502 [viewed 26 July 2021]. https://doi.org/10.1111/j.1468-0009.2005.00409.x. Available from: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1468-0009.2005.00409.x

TASCA, R., et al. Recomendações para o fortalecimento da atenção primária à saúde no Brasil. Revista Panamericana de Salud Publica [online]. 2020, vol.44 [viewed 26 July 2021]. https://doi.org/10.26633/RPSP.2020.4. Available from: https://iris.paho.org/handle/10665.2/51793

TASCA, R., et al. Laboratórios de inovação em saúde: por uma Atenção Primária à Saúde forte no Distrito Federal, Brasil. Ciência &.Saúde Coletiva [online].2020, vol.24, no.06, pp.2021-2030 [viewed 26 July 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232018246.08672019. Available from:  http://ref.scielo.org/9swh39

Para ler o artigo, acesse

RANZI, D. V. M., et al. Laboratório de inovação na Atenção Primária à Saúde: implementação e desdobramentos. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2021, vol.26, no.06, pp.1999-2011 [viewed 26 July 2021]. https://doi.org/10.1590/1413-81232021266.02922021. Available from: http://ref.scielo.org/kzwrwh

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MINAYO, M. C. S. and GUALHANO, L. Atenção primária: o soft power do sus [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2021 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2021/07/26/atencao-primaria-o-soft-power-do-sus/

 

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