“Eles vão certeiros nos nossos filhos” – Nós resistimos!

Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-Chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiza Gualhano, Editora Assistente da Revista Ciência & Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Na edição 27.4.2022, a Revista Ciência & Saúde Coletiva publica o artigo Eles vão certeiros nos nossos filhos”: adoecimentos e resistências de mães de vítimas de ação policial no Rio de Janeiro, de Araújo et al. (2022), com um dos temas mais gritantes e persistentes da organização social brasileira: a morte de jovens negros que moram nas periferias urbanas por policiais. Esse problema é considerado no artigo, como fruto de um preconceito que atravessa a estrutura da sociedade desde o período da escravidão: o racismo estrutural. Mas, diferente de outros momentos históricos, esse fenômeno reiterado e naturalizado, cada vez mais é enfrentado por grupos de resistência que vêm cumprindo um papel fundamental na conscientização social e na busca da necessária igualdade de direitos e de oportunidade para todos, como reza a Constituição Brasileira. Nesse artigo, as vítimas são os filhos, o movimento social é das mães.

O artigo menciona dados importantes: o último Atlas da Violência, elaborado pelo IPEA evidenciou que as principais vítimas da letalidade violenta no país são jovens negros do sexo masculino. Em 2018, houve 57.956 homicídios no Brasil; desses, 75,7% eram pessoas negras e pardas, o que perfaz uma taxa de mortalidade de 37,8 por 100 mil, ao passo que para o restante da população, aqui incluídos brancos, indígenas e amarelos, essa taxa é de 13,92/100.000 (CERQUEIRA et al, 2020). Parte desses homicídios decorre de intervenção policial. A análise de 5.896 casos ocorridos entre 2015 e 2016 pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelou que, entre as vítimas cuja informação sobre raça/cor estava disponível, 76,2% eram negras (Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2018).

Foto em preto e branco de uma gota se desprendendo de uma superfície.

Imagem: Unsplash

O artigo de Araújo et al (2022) trata de vários conceitos e temas aprofundados pelo Movimento Negro, mas aqui se aprofunda, em particular, o papel de gênero no enfretamento das perdas, o papel das mães na busca de justiça por seus filhos e os problemas de saúde que elas passam a enfrentar após a morte dos jovens. Em geral, os maridos ou companheiros pouco se envolvem ou “somem”, como dizem as mulheres. São elas que se organizam e saem em busca de justiça e de “limpar” os nomes dos filhos. Os exemplos dados pelo artigo são do Rio de Janeiro, onde se formaram os grupos como as Mães de Acari (1990), que buscavam os filhos jovens vítimas de uma chacina, as Mães da Cinelândia (1993), as Mães de Manguinhos, as Mães da Maré, as Mães da Baixada e o Movimento Moleque. São citadas também organizações semelhantes como Mães de Maio, de São Paulo, Mães do Xingu e Mães do Ceará.

A perda de um filho em situação de violência, especialmente em um contexto que gera pouca solidariedade da opinião pública, impõe a essas mulheres um luto interrompido, suprimido, abafado, a que Piaza-Bonin et al. (2015) chamam de “luto sem direitos”, vivenciado quando a perda não pode ser abertamente reconhecida, publicamente lamentada ou não tem apoio da sociedade no entorno. A repetição das histórias das mortes dos filhos, como parte da vivência ativista, afasta-as do convívio com alguns amigos e até familiares. Em geral, o pai se afasta deixando a mãe em total solidão, temendo por sua vida e a de outros filhos. Rocha (2012) definiu esse temor como “iminência ansiosa” ou estado de alerta constante. Praticamente todas passam algum tipo de sofrimento mental como medo, ansiedade, pensamentos intrusivos, síndrome do pânico, insônia, estresse pós-traumático, isolamento social e depressão. O ativismo dos grupos de denúncia e busca de reparação é o único remédio que faz algumas delas se levantarem: “quando a gente se levanta, a gente percebe que tem força […] é preciso ter saúde pra poder seguir na caminhada”. No entanto, elaborar diagnósticos psiquiátricos sobre elas é pouco. É preciso levar em conta os processos que estruturam sua realidade social e tomar consciência de que superar a violência é um processo de busca por igualdade de direitos. Mais que nunca é preciso reafirmar que a violência faz mal à saúde!

Leia mais

CERQUEIRA D. and BUENO, S. (org.) Atlas da Violência 2020. Brasília: Ipea; 2020.

Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública; 2018.

GOUVÊA, D.L.S., LOVISI, G.M. and MELLO, M.G.S. Serviços da atenção especializada para crianças com síndrome congênita pelo vírus zika no Rio de Janeiro, Brasil, a partir da análise de rede social. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, vol. 27, no. 3, pp. 881-894 [viewed 24 May 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-81232022273.03342021. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/DdPtDwFpR5TTW3N839jJBqr/

PIAZZA-BONIN, E., et al. Disenfranchised Grief Following African American Homicide Loss: An Inductive Case Study. OMEGA – Journal of Death and Dying [online]. 2015, vol. 70, no.4, pp. 404-427 [viewed 24 May 2022]. https://doi.org/10.1177/0030222815573727. Available from: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0030222815573727

ROCHA, L.O. Black mothers’ experiences of violence in Rio de Janeiro. Cultural Dynamics [online]. 2012, vol. 24, no. 1, pp. 59-73 [viewed 24 May 2022]. https://doi.org/10.1177/0921374012452811. Available from: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0921374012452811

Para ler o artigo, acesse

ARAÚJO, V.S., SOUZA, E.R. and SILVA, V.M. “Eles vão certeiros nos nossos filhos”: adoecimentos e resistências de mães de vítimas de ação policial no Rio de Janeiro. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, vol. 27, no. 4, pp. 1327-1336 [viewed 24 May 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-81232022274.06912021. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/6QWq6LzzdDvwSJSgRsKKB4c/

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Para ler a edição temática completa acesse: https://www.scielo.br/j/csc/i/2022.v27n4/

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

MINAYO, M.C.S. and GUALHANO, L. “Eles vão certeiros nos nossos filhos” – Nós resistimos! [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2022 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2022/05/25/eles-vao-certeiros-nos-nossos-filhos-nos-resistimos/

 

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