O machismo se reproduz como um dote hereditário

Maria Cecília de Souza Minayo, Editora-chefe da Revista Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

Luiza Gualhano, Editora Assistente da Revista Ciência & Saúde, Rio de Janeiro, RJ, Brasil.

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Elementos constitutivos da masculinidade ensinados/apreendidos na infância e adolescência de homens que estão sendo processados criminalmente por violência contra a mulher/parceira é o título de um artigo escrito por Silva, et al (2022) e publicado na edição 27.6.2022 da Ciência & Saúde Coletiva. O texto faz uma demonstração empírica do que muitos autores consideram a perpetuação do patriarcalismo que se reproduz dentro de casa e fora dela, inicia e envolve os meninos, mas também acultura as meninas e as mulheres. Observá-lo no ambiente doméstico é importante porque a família, em sendo a primeira instituição de contato do indivíduo, torna-se a principal fonte de socialização e disseminação dos padrões e normas reproduzidos nas relações sociais (COSTA, 2014).

O primeiro ponto que o texto evidencia é a transgeracionalidade do machismo e os elementos que o constituem. Com base na oralidade masculina, têm-se os elementos constitutivos da masculinidade que lhes foram ensinados na infância e adolescência e reproduzidos na violência conjugal, conformando uma mentalidade que naturaliza a infidelidade, supervaloriza o trabalho, obriga a provisão familiar pelo homem e lhes confere o direito de impor normas, regras e de ter poder sobre a mulher. É claro que o machismo não se contenta com a intimidade doméstica, ele transborda para o ambiente de trabalho, a política, a cultura e o conjunto das relações sociais. Porém, este artigo se propõe a analisar como ele se expressa na cultura familiar.

Fotografia da silhueta de um casal ao por do sol, a mulher está com a cabeça baixa, escondendo o rosto com as braços e o homem está andando em sua direção.

Imagem: Eric Ward.

Um dos pontos mais relevantes do machismo, observado pelos autores é a naturalização da infidelidade tão rigorosamente censurada à mulher e vivenciada como um troféu pelo homem: o homem mulherengo; o homem que não pode ver um rabo de saia que pensa em pegar; o homem que tem várias amantes. Esse é o homem valorizado que efetivamente dissocia as relações afetivas das relações sexuais, sendo as últimas, atribuídas a um instinto indomável (WEISER et al, 2015).

Outra categoria transbordante de sentido que os autores encontraram é a supervalorização do trabalho fora de casa para provimento da família. O emprego é uma referência da figura masculina e está associado ao prestígio pessoal e ao domínio familiar. A desculpa principal para essa entrega que mira a emancipação financeira é o compromisso de cuidar da família, enquanto, contraditoriamente, o tempo excessivo destinado ao mundo do trabalho ou aos negócios tende a limitar e a anular o convívio familiar e o compartilhamento da vida e dos afazeres domésticos.

Geralmente o parceiro violento nutre profundo desprezo pela capacidade da mulher e tolhe qualquer iniciativa de ela se tornar independente (porque isso seria uma invasão do campo masculino) e não dá a mínima para o desenvolvimento dos filhos (ABUCHAIM, 2016). Todos os criminosos entrevistados consideram que, ao agirem assim, apenas estavam seguindo a cartilha de como “como ser homem” ensinada por seus pais e avós.

Em situações em que as mulheres são totalmente dependentes dos maridos, as que não se submetem, vivem relacionamentos fracassados e violentos que podem levá-las à morte (MADALOZZO, et al, 2018). Não são apenas os meninos que aprendem a ser machistas. As meninas também são socializadas para serem submissas, para cumprirem as tarefas que lhes seriam próprias, segundo a mentalidade patriarcal.

Por fim, faz parte do autoritarismo masculino a imposição de condutas e regras que a família deve seguir e obedecer. A crença patriarcal é de que o homem sempre sabe o que é melhor para todos em casa. Corroborando o que aqui se descreve, estudo realizado em Porto Alegre mostra que 108 autores de violência conjugal afirmaram serem eles responsáveis por ditar as regras de sua casa, cuja desobediência era punida com violência (MARASCA, et al, 2017). Infelizmente, em muitos ambientes sociais brasileiros, a perpetuação do machismo continua vigente, o que se constata inclusive em pesquisas com novas gerações.

Referências

ABUCHAIM, B.O. redatora. Importância dos vínculos familiares na primeira infância: estudo II. São Paulo: Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, 2016.

COSTA, R. Rituais familiares: práticas e representações sociais na construção da família contemporânea. Revista da Faculdade de Letras do Porto [online]. 2014, vol. 28, pp. 81-102, 2014 [viewed 12 July 2022]. Available from: https://ojs.letras.up.pt/index.php/Sociologia/article/view/1308

MADALOZZO, R. and BLOFIELD, M. How low-income families in São Paulo reconcile work and family? Revista de Estudos. Feministas [online]. 2017, vol.25, no.1, pp. 215-2 [viewed 12 July 2022]. https://doi.org/10.1590/1806-9584.2017v25n1p215. Available from: https://www.scielo.br/j/ref/a/Fd7ddgmSnNy8ftwWkbfKWkC/abstract/?lang=pt

MARASCA, A., et al. Violência física conjugal sofrida e cometida por homens: repetindo padrões familiares? Psico-USF [online]. 2017, vol.22, no.1, pp. 99-108 [viewed 12 July 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-82712017220109. Available from: https://www.scielo.br/j/pusf/a/hHqynQNgKtsdsFTVfXCvFjf/?lang=en

WEISER, D.A., et al. Family Background and Propensity to Engage in Infidelity. Journal of Family Issues, v. 38, n.15, 2015.

Para ler o artigo, acesse

SILVA, A.F., et al. Elementos constitutivos da masculinidade ensinados/apreendidos na infância e adolescência de homens que estão sendo processados criminalmente por violência contra a mulher/parceira. Ciência & Saúde Coletiva [online]. 2022, vol. 27, no. 6, pp. 2123-2131 [viewed 12 July 2022]. https://doi.org/10.1590/1413-81232022276.18412021. Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/N5NZMqyRYxh763Fq3pPfzgS/

Links externos

Para ler a edição temática completa acesse: https://www.scielo.br/j/csc/i/2022.v27n6/

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Como citar este post [ISO 690/2010]:

MINAYO, M.C.S. and GUALHANO, L. O machismo se reproduz como um dote hereditário [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2022 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2022/07/12/o-machismo-se-reproduz-como-um-dote-hereditario/

 

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