Simone Bacilieri, Linceu Editorial, São José dos Campos, SP, Brasil
O transplante hepático consolidou-se, ao longo das últimas décadas, como um dos maiores avanços da medicina no tratamento da doença hepática em estágio terminal (Ahmed; Keeffe, 2007). Desde sua primeira realização, em 1963, o procedimento vem salvando vidas e proporcionando aumentos expressivos na sobrevida e na qualidade de vida de pacientes que antes enfrentavam um prognóstico extremamente desfavorável.
No Brasil, essa trajetória teve início em 1968 (Pacheco, 2016) e evoluiu com a ampliação da infraestrutura hospitalar e o avanço das técnicas cirúrgicas. Apesar desse sucesso clínico evidente, o artigo Reinserção no Mercado de Trabalho de Transplantados de Fígado: Evidências de Uma Unidade de Transplante, publicado no Brazilian Journal of Transplantation (v.28, 2025), chama atenção para uma dimensão menos visível da recuperação: a reintegração ao mercado de trabalho. Embora aproximadamente 80% dos pacientes retornem às atividades após o transplante, os resultados indicam uma redução de cerca de 20% na probabilidade de permanência no emprego formal, revelando que sobreviver não significa, necessariamente, retomar plenamente a vida profissional.
A autora do artigo partiu da constatação de que os impactos socioeconômicos do transplante de fígado ainda são pouco explorados, especialmente quando comparados à vasta produção científica sobre os desfechos clínicos do procedimento. O estudo analisou a trajetória profissional de pacientes adultos que estavam inseridos no mercado de trabalho antes da cirurgia, buscando compreender como o transplante afetou suas chances de permanecerem empregados formalmente.
Foram avaliados dados da Unidade de Transplante de Fígado do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, da Universidade Federal de Pernambuco, referentes ao período de 2012 a 2021, acompanhando a situação ocupacional dos pacientes antes e depois da realização do procedimento. O objetivo foi identificar se os ganhos em sobrevida e qualidade de vida também se traduzem em estabilidade econômica e reinserção produtiva, aspectos essenciais para a autonomia e o bem-estar social.
Para alcançar esses resultados, a autora utilizou uma abordagem quantitativa com desenho descritivo e transversal, aplicando o método estatístico conhecido como diferença nas diferenças. Essa técnica permite comparar mudanças ao longo do tempo entre dois grupos distintos: o dos pacientes submetidos ao transplante e o de um grupo de controle formado por indivíduos que ainda não haviam passado pelo procedimento.
Dessa forma, foi possível isolar o efeito específico do transplante sobre o emprego. As informações sobre os vínculos trabalhistas foram obtidas a partir da Relação Anual de Informações Sociais, que reúne registros oficiais de empregos formais no país. O cruzamento desses dados com as informações clínicas permitiu uma análise objetiva das transições no mercado de trabalho associadas ao transplante hepático.
Os resultados revelaram um cenário contraditório. De um lado, confirmam que a maioria dos pacientes sobrevive ao procedimento e retorna ao mercado de trabalho. De outro lado, demonstram que a chance de manter um vínculo formal diminui de forma significativa após a cirurgia. Além disso, cerca de metade da coorte transplantada deixou de constar nos registros formais de emprego no período pós-transplante, sugerindo migração para a informalidade ou desligamento completo do mercado de trabalho.
Diversos fatores ajudam a explicar esse fenômeno, entre eles a faixa etária predominante dos receptores, situada entre 50 e 69 anos, o aumento das comorbidades, as limitações físicas decorrentes do próprio estado de saúde, o rigor do período de recuperação, o risco de rejeição crônica do órgão, o uso contínuo de medicamentos imunossupressores e a necessidade de acompanhamento médico frequente. Soma-se a isso a possível existência de estigmas e discriminação no ambiente de trabalho contra pessoas com histórico de doenças graves, o que pode dificultar a contratação e a permanência no emprego.
Os achados evidenciam que a recuperação após o transplante hepático ultrapassa os limites da reabilitação clínica e envolve desafios sociais, econômicos e institucionais relevantes. A redução da empregabilidade formal aponta para fragilidades nos sistemas de apoio aos transplantados e para a necessidade de políticas públicas mais abrangentes, que incluam programas de requalificação profissional, práticas efetivas de combate à discriminação e modelos de trabalho mais flexíveis, compatíveis com as demandas crônicas de saúde desses pacientes.
O estudo também revela desigualdades regionais importantes, com taxas de reintegração mais baixas em regiões menos favorecidas do país. Além disso, reforça a importância de ações de prevenção das doenças hepáticas, como as relacionadas ao alcoolismo, às hepatites virais e às síndromes metabólicas, como forma de reduzir a demanda por transplantes no futuro. Assim, os resultados mostram que garantir vida após o transplante envolve não apenas manter o órgão saudável, mas também criar condições para que essas pessoas possam reconstruir suas trajetórias profissionais e sociais de forma digna e sustentável.
Para ler o artigo, acesse
NASCIMENTO, L.D.S. Reinserção no Mercado de Trabalho de Transplantados de Fígado: Evidências de Uma Unidade de Transplante. Brazilian Journal of Transplantation [online]. 2025, vol. 28, e1325 [viewed 10 March 2026]. https://doi.org/10.53855/bjt.v28i1.651_PORT. Available from: https://www.scielo.br/j/bjt/a/XgNCcBHRsqJ3fPL8vyNwfJP/
Referências
AHMED, A. and KEEFFE, E.B. Current indications and contraindications for liver transplantation. Clinical Liver Disease [online]. 2007, vol. 11, no. 2, pp. 227–247 [viewed 10 March 2026]. https://doi.org/10.1016/j.cld.2007.04.008. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1089326107000232?via%3Dihub
PACHECO, L. Transplante de fígado no Brasil. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões [online]. 2016, vol. 43, no. 4, pp. 223–224 [viewed 10 March 2026]. https://doi.org/10.1590/0100-69912016004014. Available from: https://www.scielo.br/j/rcbc/a/k4PtqzhdMs6xNNmPsfM9nLv/
Links externos
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A autora assume total responsabilidade por este texto, revisado e editado após a elaboração de um esboço pelo SciSummary, em dezembro de 2025.
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