Maria Luiza De Grandi, jornalista da revista Ciência Rural, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.
João Marcos Nacif da Costa, doutor pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
Um grupo de pesquisadores do Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de Minas Gerais em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da North Carolina State University e da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul analisou, em detalhe, dois surtos de febre aftosa que marcaram a história sanitária do país no início dos anos 2000. A equipe reuniu dados oficiais da época para reconstruir a dinâmica de disseminação do vírus e estimar parâmetros epidemiológicos essenciais para entender o que diferenciou os dois episódios. O artigo Avaliação dos parâmetros epidemiológicos e características de disseminação dos focos de febre aftosa de 2000 e 2001 no Rio Grande do Sul, Brasil foi publicado no periódico Ciência Rural (vol. 55, no. 10, 2025).
Segundo o pesquisador João Marcos Costa, que integra o grupo responsável pelo estudo, esses surtos tiveram enorme impacto na economia e no sistema de defesa sanitária, mas grande parte das evidências geradas pelas investigações de campo nunca foi discutida de forma aprofundada na literatura científica, e isso nos motivou a revisitar esses dados com ferramentas mais moderna. O estudo avaliou informações sobre localização das propriedades, tamanho dos rebanhos, datas de notificação e características clínicas registradas durante as investigações. O artigo descreve detalhadamente os cálculos e a reconstrução temporal dos surtos, mostrando a diferença entre a dinâmica epidemiológica observada em 2000 e 2001.
João Costa destaca que “vários fatores contribuíram para a diferença entre os dois anos, como atrasos na notificação, movimentação de animais e menor imunidade do rebanho em 2001, o que criou um cenário mais favorável para a disseminação do vírus”. As análises do artigo reforçam essa interpretação ao mostrar que, no surto de 2001, a curva de casos estimados evolui de forma mais rápida e com maior número de transmissões secundárias em comparação ao ano anterior.

Imagem: João Marcos Costa via Paint.
Para o pesquisador, revisitar esses surtos é fundamental para fortalecer a defesa sanitária do país. “São eventos que marcaram profundamente o setor, mas que ainda careciam de análises quantitativas robustas. Quando entendemos como a doença se comportou no passado, conseguimos planejar melhor o futuro”, explica. Ele ressalta que a aplicação de métodos modernos, como a modelagem Bayesiana, permitiu extrair informações importantes mesmo a partir de bases de dados antigas e nem sempre completas, uma limitação comum em surtos históricos. O estudo também coloca os surtos gaúchos no contexto internacional, destacando que países como Reino Unido, Argentina e Japão já utilizam esse tipo de modelagem para revisar emergências sanitárias e aprimorar seus planos de contingência.
A pesquisa ajuda a reforçar conceitos fundamentais para a prevenção e o controle da febre aftosa, como a importância da notificação precoce e do monitoramento da movimentação animal. João afirma que “cada dia de atraso na notificação conta, e entender o impacto disso em epidemias reais é essencial para treinar equipes, ajustar protocolos e planejar ações de emergência”. Ele também destaca que os resultados podem ser usados para simulações de cenários futuros, capacitações técnicas e definição de estratégias de biosseguridade para propriedades rurais e regiões de fronteira.
O trabalho se diferencia por aplicar métodos estatísticos avançados a surtos históricos brasileiros, algo ainda pouco comum no país. O pesquisador comenta que “no Brasil, há poucos estudos que utilizam ferramentas quantitativas desse tipo para analisar epidemias passadas, e isso torna o nosso estudo um passo importante para fortalecer a epidemiologia veterinária nacional”. Para ele, os achados também reforçam a necessidade de manter investimentos em vigilância e prevenção, especialmente em regiões de maior risco. O pesquisador conclui que “olhar para o passado com as ferramentas certas nos permite construir um sistema sanitário mais preparado e eficiente”.
Para ler o artigo, acesse
COSTA, J.M.N., et al. Avaliação dos parâmetros epidemiológicos e características de disseminação dos focos de febre aftosa de 2000 e 2001 no Rio Grande do Sul, Brasil. Ciência Rural [online]. 2025, vol. 55, no. 10, e20240540 [viewed 03 June 2026]. https://doi.org/10.1590/0103-8478cr20240540. Available from: https://www.scielo.br/j/cr/a/xbNfLqFDBWZrTCHpR6Z3BtC/
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