Frenotomia lingual: medo e sofrimento versus melhora no aleitamento materno

Por Fabiana Bucholdz Teixeira Alves, professora adjunta, Departamento de Odontologia e Coordenadora da Residência Multiprofissional em neonatologia, Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), PR, Brasil. 

O artigo “Oral health of neonates: mothers’ perception of lingual frenotomy performed in a university hospital”, publicado na RGO – Revista Gaúcha de Odontologia (vol. 68), trata-se de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, desenvolvida junto a mães de recém-nascidos que passaram pelo procedimento de frenotomia lingual durante o puerpério.

O estudo foi realizado por uma equipe da neonatologia composta de cirurgiãs dentistas e enfermeiras. Após diagnosticada a presença de anquiloglossia e dificuldade na amamentação, foi realizada a frenotomia e, posteriormente, uma entrevista guiada em grupo focal foi conduzida às mães dos neonatos. Torna-se relevante conhecer a percepção materna além do diagnóstico e da técnica de tratamento da anquiloglossia a fim de observar a visão dos provedores no cotidiano e, assim, contribuir para o meio científico em relação a um assunto muito discutido nos últimos anos.

O assunto “língua presa” é tratado por alguns profissionais da área como “modismo”. No entanto muitas vezes se esquece que os benefícios do aleitamento materno superam a falta de evidências questionada por muitos. Outro fator relevante são os profissionais que atuam diretamente na prática clínica, frente ao aleitamento materno nas primeiras 49 horas em ambiente hospitalar e inseridos em equipe multiprofissional, que conseguem identificar as interferências no aleitamento materno sob múltiplas facetas.

Neste estudo identificou-se cinco núcleos temáticos atrelados a frenotomia lingual em bebês: as impressões maternas frente à indicação profissional, o julgamento da família, a necessidade de realização da frenotomia, os sentimentos após a realização da frenotomia e as alterações no comportamento do bebê. As principais impressões maternas estavam atreladas aos medos e sofrimentos relacionadas à reação dos bebês. Quanto à necessidade de realização da frenotomia lingual, as opiniões intrínsecas foram inicialmente divergentes, entretanto, todas evidenciaram que o procedimento era indispensável ao seu bebê, principalmente para a “fala”. Após a realização da frenotomia, as mães relataram bem-estar pela melhoria na fisiologia lingual e qualidade de vida dos bebês, com ênfase na amamentação e melhora no comportamento do bebê.

Imagem: SIQUEIRA, B., et al.

As mães dentro do conhecimento parecem estar mais preocupadas em um primeiro momento na questão da fala, no entanto, após a experiência da amamentação antes e depois da frenotomia relatam o benefício no ato. Vale lembrar que os resultados alcançados são encorajadores para gestores de hospitais considerarem, em seus protocolos clínicos, a técnica da frenotomia lingual em recém-nascidos, com vistas à facilitação do acesso de mães ao procedimento, à qualificação da amamentação materna e à consequente ampliação do vínculo maternoinfantil. É relevante identificar sinais e sintomas no binômio mãe-bebê em vários domínios e, especialmente, deve haver uma limitação funcional além de um achado anatômico na língua, a fim de atender critérios para a avaliação, rastreamento, diagnóstico e gestão do frênulo. Destacando que a função ideal da língua e as posturas de descanso muscular também fornecem um molde para o crescimento adequado e o desenvolvimento das arcadas dentárias e do desenvolvimento facial e das vias aéreas.

Assim, é importante não criar muralhas sobre o assunto, mas arregaçar as mangas e pesquisar com muito rigor os fatores que levam ao desmame precoce, pelo simples fato das evidencias esmagadoras que demostram os benefícios do aleitamento materno para a saúde e o bem-estar infantil, repercutindo a curto e a longo prazo no individuo e na sociedade. Devemos aos nossos pacientes usar o conhecimento mais atualizado e o melhor julgamento clínico para auxiliar a díade materno-infantil, pois não existem estudos baseados em evidências que possam mostrar o não-efeito do tratamento da língua presa em bebês que lutam para amamentar efetivamente.

Repensar… Frente a uma anomalia não fazer nada? Evidências são necessárias? Estudos clínicos randomizados são necessários? Seria antiético em um desenho de estudo proporcionar o não tratamento diante do potencial do benefício da liberação da língua presa, por causa do grupo controle de estudo?  Discutir o assunto com quem atua na consultoria do aleitamento materno?

Para ler o artigo, acesse

SIQUEIRA, B., et al. Saúde bucal de neonatos: percepção das mães sobre a frenotomia lingual realizada em um hospital universitário. RGO, Rev. Gaúch. Odontol. [online]. 2020, vol.68, e20200023, ISSN: 1981-8637  [viewed 23 October 2020]. DOI: 10.1590/1981-863720200002320180008. Available from: http://ref.scielo.org/6tftqq

Links externos

Ministério da Saúde – Aleitamento Materno <https://portalarquivos.saude.gov.br/campanhas/amamentacao/>

RGO – Revista Gaúcha de Odontologia: <http://www.scielo.br/rgo>

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

ALVES, F.B.T. Frenotomia lingual: medo e sofrimento versus melhora no aleitamento materno [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2020 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2020/10/26/frenotomia-lingual-medo-e-sofrimento-versus-melhora-no-aleitamento-materno/

 

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