Tendências crescentes de taxas de incidência de sífilis gestacional e sífilis congênita evidenciam um problema que persiste

Isis Polianna Silva Ferreira de Carvalho, Editora Associada da Revista Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do Sistema Único de Saúde do Brasil, Ministério da Saúde, Brasília, Distrito Federal, Brasil.

A sífilis congênita é uma doença com amplo espectro clínico que pode se manifestar desde formas assintomáticas até formas graves, que podem ocasionar óbito fetal e neonatal. A transmissão do Treponema pallidum, bactéria causadora da doença, ao feto, ocorre via placenta de gestantes infectadas não tratadas ou tratadas inadequadamente, independentemente da idade gestacional. No Brasil, a taxa de incidência de sífilis congênita cresceu nos últimos anos, passando de 2,4 casos, em 2010, para 8,2 casos por mil nascidos vivos, em 2019.

Em outubro de 2021, mês da Campanha Nacional de Combate à Sífilis, foi publicado no periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do Sistema Único de Saúde do Brasil (RESS, vol. 30, n. 4), o artigo de Amorim e colaboradores, intitulado Tendência dos casos de sífilis gestacional e congênita em Minas Gerais, 2009-2019: um estudo ecológico, que analisou a tendência das notificações de sífilis gestacional e congênita em Minas Gerais no período de 2009 a 2019.

Neste estado, foram notificados aproximadamente 20 mil casos de sífilis gestacional e 11 mil casos de sífilis congênita no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) no período. Os autores identificaram tendências crescentes para as taxas de incidência de sífilis gestacional e de sífilis congênita, com percentual médio de incremento anual de cerca de 30% para ambos os agravos.

Foto de uma mulher negra grávida usando vestido. No fundo uma porta de madeira.

Imagem: Unsplash

Em relação à sífilis gestacional, houve tendência crescente nas proporções dos casos diagnosticados no 1º trimestre da gravidez, e tendência decrescente do diagnóstico no 2º e 3º trimestres de gestação. De acordo com os autores, estes resultados sugerem a melhoria na cobertura da assistência pré-natal em Minas Gerais, uma vez que o início tardio da atenção à saúde pré-natal é a principal barreira para o controle da doença durante o período gestacional.

Por outro lado, os dados do estudo mostraram que em cerca de 60% dos casos notificados de sífilis congênita, as mães não haviam realizado o tratamento adequado da sífilis e que houve tendência crescente de casos de sífilis congênita entre estes casos. Estes resultados sugerem que a adesão ao tratamento é um dos grandes desafios a serem enfrentados para a diminuição dos casos de sífilis congênita, uma vez que a maioria das mulheres recebe o diagnóstico da sífilis durante o período gestacional, mas não realizam o tratamento adequadamente, o que é refletido nas altas taxas de sífilis congênita.

A sífilis congênita é uma doença evitável, desde que a sífilis gestacional seja diagnosticada e tratada oportunamente. Por esse motivo, as tendências crescentes das taxas de incidência são preocupantes, pois revelam lacunas que podem estar diretamente relacionadas com a assistência pré-natal e acompanhamento do tratamento de gestantes diagnosticadas. Para a redução da ocorrência da sífilis, como ocorre para as demais infecções sexualmente transmissíveis e tantas outras doenças, evidencia-se a importância da priorização de ações voltadas para qualificação dos serviços de atenção primária à saúde no Brasil.

Leia mais

DOMINGUES, C.S.B., et al. Protocolo Brasileiro para Infecções Sexualmente Transmissíveis 2020: sífilis congênita e criança exposta à sífilis. Epidemiologia e Serviços de Saúde [online]. 2021, vol. 30 (spe1), e2020597 [viewed 18 January 2022]. https://doi.org/10.1590/S1679-4974202100005.esp1. Available from: https://www.scielo.br/j/ress/a/SwXRF6pXG3hX58K86jDSckv/?lang=pt

Secretaria de Vigilância em Saúde – Ministério de Saúde. Boletim Epidemiológico de Sífilis. 2020 [viewed 18 January 2022]. Available from: http://www.aids.gov.br/pt-br/pub/2020/boletim-sifilis-2020

Para ler o artigo, acesse

AMORIM, E.K.R., et al. Tendência dos casos de sífilis gestacional e congênita em Minas Gerais, 2009-2019: um estudo ecológico. Epidemiologia e Serviços de Saúde [online]. 2021, vol. 30, no. 4, e2021128 [viewed 18 January 2022]. https://doi.org/10.1590/S1679-49742021000400006. Available from: https://www.scielo.br/j/ress/a/C9HNFpTnZV4DjHJJpkkwtGP/?lang=pt

Link(s)

Redes sociais da RESS: Facebook e Twitter

Epidemiologia e Serviços de Saúde – RESS: https://www.scielo.br/j/ress/

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

CARVALHO, I.P.S.F. Tendências crescentes de taxas de incidência de sífilis gestacional e sífilis congênita evidenciam um problema que persiste [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2022 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2022/01/28/tendencias-crescentes-de-taxas-de-incidencia-de-sifilis/

 

Leave a Reply

Your email address will not be published.

Post Navigation