Desgaste emocional de trabalhadores do serviço funerário na pandemia revela desvalorização e invisibilidade

Karina Penariol Sanches, analista em Ciência e Tecnologia, jornalista da Fundacentro, São Paulo, SP, Brasil

Logo do periódico Revista Brasileira de Saúde OcupacionalCom recordes de óbitos e sepultamentos, a pandemia da Covid-19 agravou as já precarizadas condições de trabalho no serviço funerário municipal de São Paulo. A sobrecarga de trabalho intensificou o acúmulo de funções, aprofundou vivências laborais já desgastantes e frustrantes, aumentou a exposição ao estresse e a desvalorização social. Essa situação levou muitos desses(as) trabalhadores(as) à exaustão emocional, repercutindo em fragilização do sentido do trabalho, desgaste e sofrimento mental. É o que observa o artigo O trabalho duro e precarizado de trabalhadores(as) do serviço público funerário paulistano durante a pandemia de Covid-19 (vol. 49, 2024), publicado no dossiê temático Saúde Mental e Subjetividade, da Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (RBSO).

Para compreender as atividades desenvolvidas por esses(as) trabalhadores(as), os impactos na saúde e questões políticas envolvidas no atendimento à população durante aquele período, Carolina de Moura Grando (Sindicato dos Trabalhadores na Administração Pública e Autarquias no Município de São Paulo), Luci Praun (Universidade Federal do Acre, UFAC), Renata Paparelli (Pontifícia Universidade Católica, PUC) e Vera Lucia Salerno (Universidade Estadual de Campinas, Unicamp) entrevistaram 16 trabalhadores(as). Lotados em dois cemitérios e um polo administrativo, os servidores desempenhavam atividades nas áreas de sepultamento, velório, portaria, veículos, almoxarifado, expedição de urnas.

Os relatos mostraram que o desgaste e o sofrimento mental nesse contexto se relacionam a diferentes situações. Uma delas, à natureza do trabalho de cuidado direcionado ao familiar enlutado, abalado pela necessidade de reduzir o contato com essas pessoas.

 

 

Outra situação se relaciona à discriminação. A profissão, que já vinha carregada de invisibilidade e estigma social, passou a impactar ainda mais as relações familiares e com amigos, que começaram a evitar o(a) trabalhador(a) por medo de contrair o vírus. O isolamento e a impossibilidade de compartilhar com a família as experiências de trabalho geraram sofrimento mental.

“Se, portanto, o trabalho deles(as) já era tido como ‘sujo’, a Covid-19 ressignificou essa ideia, atrelando a atividade a uma suposta maior exposição a uma doença pouco conhecida e potencialmente letal”, observam as autoras.

A desvalorização é também aspecto mencionado nas entrevistas e que repercutiu na saúde mental desses(as) trabalhadores(as) durante a pandemia. A intensificação do trabalho e o necessário afastamento de trabalhadores efetivos com mais de 60 anos e com comorbidades, aliados à não reposição do quadro de concursados, acelerou a terceirização. Nesse processo, os(as) trabalhadores(as) veem o saber desenvolvido ao longo dos anos se perder.

“Os participantes da pesquisa expressaram, majoritariamente, estar em uma situação na qual utilizam seu saber prático para formar os terceirizados, viabilizar o desenvolvimento das atividades, ao mesmo tempo que testemunham o fim de seu próprio trabalho”, destacam as autoras.

A precarização e a má remuneração somadas ao desmonte do sentido do trabalho provocam sensação de derrota, de perda das referências e torna os(as) trabalhadores(as) mais expostos e vulneráveis ao desgaste e adoecimento.

“É importante compreender o serviço funerário como um trabalho de cuidado integrado à atenção, à saúde e ao planejamento de situações emergenciais na cidade, com recursos suficientes para a realização segura das atividades, considerando seus diversos impactos à saúde dos(as) trabalhadores(as)”, concluem.

 

 

Para ler o artigo, acesse

GRANDO, C.M., et al. O trabalho duro e precarizado de trabalhadores(as) do serviço público funerário paulistano durante a pandemia de Covid-19. Rev Bras Saúde Ocup, Dossiê Temático Saúde Mental e Subjetividade [online]. 2024, vol. 49, edsmsubj3 [viewed 7 November 2025]. https://doi.org/10.1590/2317-6369/30422pt2024v49edsmsubj3. Available from: https://www.scielo.br/j/rbso/a/sTRZDqCFrkhSzh5v3cMtrrS/

Links Externos

Revista Brasileira de Saúde Ocupacional – RBSO

Revista Brasileira de Saúde Ocupacional (Fundacentro)

Revista Brasileira de Saúde Ocupacional – X

 

Como citar este post [ISO 690/2010]:

SANCHES, K.P Desgaste emocional de trabalhadores do serviço funerário na pandemia revela desvalorização e invisibilidade [online]. SciELO em Perspectiva | Press Releases, 2025 [viewed ]. Available from: https://pressreleases.scielo.org/blog/2025/11/07/desgaste-emocional-de-trabalhadores-do-servico-funerario-na-pandemia-revela-desvalorizacao-e-invisibilidade/

 

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