Fernanda Morcatti Coura, professora do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
Maria Luiza De Grandi, jornalista da revista Ciência Rural, Santa Maria, Rio Grande do Sul, Brasil.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e da Zambrano Consultoria analisou como as práticas de biossegurança vêm sendo adotadas por fazendas leiteiras brasileiras e identificou diferenças importantes entre propriedades pequenas, médias e grandes, revelando um cenário que exige mais apoio técnico e conscientização para garantir rebanhos saudáveis e leite de qualidade. O artigo Práticas de biosseguridade e desafios sanitários em fazendas leiteiras no Brasil foi publicado pelo periódico Ciência Rural (vol. 55, no. 9, 2025).
A pesquisadora Fernanda Morcatti Coura explica que a motivação surgiu da necessidade de entender como os produtores realmente aplicam medidas preventivas no dia a dia das propriedades, já que “a biossegurança é um dos pilares para manter animais saudáveis e proteger a saúde pública, mas ainda carecemos de informações sólidas sobre como essas práticas acontecem na pecuária leiteira do país”, segundo ela. O trabalho analisou respostas de 91 produtores de diversas regiões brasileiras, obtidas por meio de um questionário online composto por 54 perguntas, adaptado de ferramentas internacionais já validadas e focado em manejo sanitário, entrada de animais, ordenha, manejo de esterco e percepção dos produtores sobre prevenção de doenças.
Os resultados mostraram que, embora quase todos os participantes reconheçam a importância de prevenir doenças no rebanho, muitas práticas essenciais ainda não fazem parte da rotina de grande parte das fazendas. Menos da metade dos produtores já participou de algum treinamento sobre biossegurança, e somente uma minoria realiza testes sanitários ao comprar novos animais, o que aumenta o risco de introdução de doenças no rebanho. Fernanda destaca que “há conhecimento, mas falta apoio técnico para transformar esse entendimento em rotina dentro da porteira”. O estudo também identificou que propriedades maiores e sistemas intensivos adotam mais medidas preventivas, como testes diagnósticos, quarentena e tecnologias de gestão do rebanho, enquanto fazendas pequenas e extensivas apresentam mais dificuldades para implementar essas ações.

Imagem: Fernanda Coura
No artigo, os autores mostram que apenas 10% das propriedades tratam o esterco, apesar de 74% realizarem a coleta e o armazenamento, e que o controle de acesso às áreas de animais é falho em grande parte das fazendas, permitindo a entrada de pessoas e veículos sem procedimentos de higiene ou desinfecção. A pesquisadora explica que esses dados evidenciam desafios estruturais e econômicos que afetam o setor, afirmando que “os pequenos produtores enfrentam barreiras financeiras e falta de assistência especializada, e isso reflete diretamente na adoção das práticas mais avançadas”. Mesmo assim, ela reforça que medidas básicas, como protocolos de vacinação, higiene na ordenha e cuidados com os bezerros, já são aplicadas em muitas propriedades, especialmente naquelas com maior produção.
Apesar de trazer resultados abrangentes, Fernanda ressalta que o estudo é um ponto de partida e não representa todo o setor leiteiro do Brasil, pois foi baseado em um questionário voluntário com 91 respostas. Segundo ela, “o trabalho precisa ser ampliado, principalmente para incluir mais regiões e diferentes perfis produtivos, mas já conseguimos enxergar gargalos importantes e caminhos possíveis para aprimorar a biossegurança no campo”. Para a pesquisadora, os achados reforçam a necessidade de políticas públicas específicas e capacitações contínuas para produtores, especialmente os pequenos, que mais carecem de suporte. Ela afirma que “os resultados podem orientar treinamentos, incentivar o uso de tecnologias acessíveis e ajudar a direcionar recursos públicos e privados para fortalecer a sanidade dos rebanhos e a sustentabilidade da produção de leite”.
A inovação do estudo está em relacionar as práticas de biossegurança com o tamanho e o tipo de sistema produtivo das fazendas, uma abordagem inédita na pecuária leiteira brasileira. Enquanto outras pesquisas no país tendem a focar aspectos isolados do manejo sanitário, este trabalho buscou compreender como diferentes perfis produtivos adotam – ou deixam de adotar – medidas preventivas essenciais, abrindo espaço para a elaboração de instrumentos mais adequados à realidade nacional. Fernanda reforça que “a pecuária leiteira ainda não tem um consenso de quais perguntas devem ser feitas para avaliar biossegurança, então adaptamos um questionário internacional e mostramos a urgência de construir ferramentas próprias para o Brasil”. Para ela, esse é um passo fundamental para criar diagnósticos mais precisos e orientar programas de sanidade animal que realmente atendam às necessidades das fazendas leiteiras brasileiras.
Para ler o artigo, acesse
SILVA, C.A.C., et al. Práticas de biosseguridade e desafios sanitários em fazendas leiteiras no Brasil. Ciência Rural [online]. 2025, vol. 55, no. 9, e20240489 [viewed 7 April 2026]. https://doi.org/10.1590/0103-8478cr20240489. Available from: https://www.scielo.br/j/cr/a/g6sN83JDmkdvf53whFvNsGx/
Links externos
Ciência Rural – Redes sociais: X | Facebook | Instagram
Como citar este post [ISO 690/2010]:















Últimos comentários