Renata de Castro Martins, editora Associada da Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG, Brasil.
A adolescência é uma fase de grandes transformações emocionais, sociais e físicas, que podem levar ao sofrimento psíquico, como depressão e ansiedade (1-3). Neste contexto, a família é núcleo importante de apoio para o enfrentamento desta fase da vida dos jovens. Famílias funcionais são aquelas que conseguem lidar com conflitos proporcionando estabilidade emocional e afeto, enquanto famílias disfuncionais são marcadas por instabilidade emocional, gerando insegurança (4-5). Além do núcleo familiar, relações de apoio, como amizades, comunidade e vínculos acadêmicos/profissionais são muito importantes para o suporte emocional do indivíduo (5).
O artigo Sintomas de ansiedade e depressão em adolescentes: estudo transversal, Passo Fundo, 2024, publicado no vol. 35 (2026) do periódico Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS (RESS), analisou a prevalência de sintomas de ansiedade e depressão em adolescentes de 11 a 14 anos e a associação com funcionalidade familiar e rede de apoio social, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. O estudo foi conduzido por Cristina Fioreze e colaboradores, da Universidade de Passo Fundo.
As prevalências de sintomas de ansiedade (46,3%) e depressão (26,2%) foram altas. A disfunção familiar foi observada em 71,4% da amostra estudada, tendo a maioria dos adolescentes relatado viver em famílias altamente ou moderadamente disfuncionais. Estudantes com ansiedade tiveram menos vínculos familiares próximos, mais pessoas distantes na família, na comunidade e no ambiente de trabalho/estudo. Estudantes com depressão apresentaram menos familiares próximos e menos pessoas próximas no âmbito da comunidade e no ambiente de trabalho/estudo.

Imagem: K. Mitch Hodge via Unsplash
Meninos apresentaram mais vínculos próximos na família, na comunidade e no ambiente de trabalho/estudo quando comparados às meninas, com exceção das amizades. A funcionalidade familiar mostrou-se fortemente associada à ansiedade e à depressão. Sinais de ansiedade e depressão foram mais frequentes em adolescentes em ambientes familiares altamente ou moderadamente disfuncionais. O baixo número de relações familiares apoiadoras foi fator de risco para ansiedade e depressão.
Elevadas prevalências de ansiedade e depressão entre os jovens foram associadas à maior disfunção familiar e redes sociais mais restritas. Este estudo destaca um dado preocupante: a alta prevalência de estudantes convivendo em famílias com algum tipo de disfuncionalidade. Menor apoio da rede social indicou uma fragilidade nas relações próximas dos adolescentes com sintomas de ansiedade e depressão. As meninas mostraram menor percepção de apoio familiar e social. A família se mostrou uma rede de apoio necessária ao cuidado de pessoas que apresentam algum tipo de sofrimento psíquico.
Apesar de os resultados se limitarem a um município estudado, esta pesquisa contribui para o planejamento de políticas públicas e a valorização de ações intersetoriais no Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas ao fortalecimento familiar e das redes de apoio escolar e comunitário, além da prevenção e promoção da saúde mental de adolescentes.
Para ler o press release, acesse
FIOREZE, C. et al. Sintomas de ansiedade e depressão em adolescentes: estudo transversal, Passo Fundo, 2024. Epidemiologia e Serviços de Saúde: revista do SUS [online]. 2026, vol. 25, e20250901 [viewed 11 June 2026]. https://doi.org/10.1590/S2237-96222026v35e20250901.pt. Available from: https://www.scielo.br/j/ress/a/LCrdzQGGfFDQHHmBgd6KJZR/
Referências
1. BUSTAMANTE ESPINOZA, L.K., et al. Desarrollo psicológico del adolescente: una revisión sistemática. Pro Sciences [online]. 2022, vol. 6, no. 42, pp. 389-98 [viewed 11 June 2026]. https://doi.org/10.29018/issn.2588-1000vol6iss42.2022pp389-398. Available from: https://journalprosciences.com/index.php/ps/article/view/498
2. GÜEMES-HIDALGO, M., CEÑAL GONZÁLEZ-FIERRO M.J. and HIDALGO VICARIO, M.I. Desarrollo durante la adolescencia: aspectos físicos, psicológicos y sociales. Pediatría Integral [online]. 2017, vol. 21, no. 4, pp. 233-44 [viewed 11 June 2026]. Available from: https://www.pediatriaintegral.es/publicacion-2017-06/
3. OLIVEIRA, B.C.S, et al. Tendência da mortalidade e anos potenciais de vida perdidos por suicídio de adolescentes. Rev. Saúde Publica. 2024, vol. 58, no. 1, pp. 30 [viewed 11 June 2026]. https://doi.org/10.11606/s1518-8787.2024058005564. Available from: https://revistas.usp.br/rsp/pt_BR/article/view/227871
4. SOUZA, R.A., et al. Funcionalidade familiar de idosos com sintomas depressivos. Rev. Esc. Enferm. USP [online]. 2014, vol. 48, no. 1. pp. 85-92 [viewed 11 June 2026]. https://doi.org/10.1590/S0080-623420140000300012. Available from: https://www.scielo.br/j/reeusp/a/TWvCnjydDCvYR8LjvTQqfZg/
5. SLUZKI, C.E. A rede social na prática sistêmica: alternativas terapêuticas. 2nd ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997.
Link externos
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